Publicado em

O achatamento nos preços cobrados pelas academias brasileiras após a consolidação do modelo low cost está custando caro para as academias de pequeno porte. Já entre as grandes redes, estratégias traçadas para a disputa de mercado no novo cenário estão dando resultados.

“Com a chegada do low cost premium, o pequeno ficou com duas opções: ou implementa serviços ou quebra o preço e cobra [mensalidades como] R$ 40”, argumentou ao DCI o CEO da Bluefit, Fernando Nero.

Com 100 mil alunos, 50 unidades em operação e previsão de 80 novas até o fim de 2019, o executivo chama de low cost premium players como a própria rede, que pratica tíquete médio mensal de R$ 100 se somados serviços, matrícula e mensalidades.

Entre as redes low cost “tradicionais”, o valor da mensalidade mais adicionais raramente ultrapassa os R$ 90. “É muito difícil alguém conseguir operar [cobrando valores] abaixo disso”, sinalizou Fernando Nero.

Ainda assim, é comum a incidência de players menores “reduzindo preços para competir com o low cost, mas sem estrutura para tal”, conforme palavras do diretor técnico da rede Bodytech, Eduardo Netto.

“Tem muito negócio fechando por conta desse achatamento. Em Copacabana (RJ), foram 20 academias fechadas nos últimos dois anos”, contou Netto. Na Bluefit, há inclusive um departamento para análise de operações em dificuldade financeira, mas que possam ser adquiridas.

Especializada em artes marciais, a Matteh Escola de Jiu Jitsu relata que os valores praticados por ela não chegaram a recuar em 2018. Segundo o diretor do estabelecimento, Vander Mattos, o que ocorreu foi uma “estagnação do tíquete-médio cobrado pela escola”.

“Há uma considerável competição, principalmente em grandes redes que estão oferecendo pacotes cada vez mais acessíveis”, afirmou Mattos, citando “a necessidade das empresas estarem atentas às tendências, comportamento e necessidades do cliente”. A mesma trilha foi seguida pelo diretor-executivo da Fitness Brasil (especializada em gestão e educação para academias), Raul Abissamra Filho.

Ainda que muitas operações estejam “derrubando preços para elevar o número de alunos e ganhar tempo para uma nova estratégia”, Filho destaca a necessidade de compreender o fator preço como “só uma parte” do desafio. “A questão principal é retenção de alunos. O maior concorrente [da academia pequena] não são os outros competidores, mas o sofá do aluno e o Netflix”.

Potencial

Abissamra também lembra que o Brasil só perde para os EUA em número de academias ativas (38 mil versus 34 mil), das quais “grade parte são operações pequenas e estúdios”.

Por outro lado, o contingente brasileiro de alunos deixa a desejar em termos relativos: ele soma 9,6 milhões (ou cerca de 4,6% da população), contra cerca de 60,8 milhões no território norte-americano (penetração de 20%), de acordo com a entidade global IHRSA.

Se boa parte desse potencial já está sendo explorado pelo segmento low cost, a oportunidade não passa despercebida para a Bodytech. Em dezembro, uma oferta voltada para a terceira idade será lançada pela rede, que conta com 103 unidades (se considerada também a bandeira Fórmula) e 130 mil alunos.

Dentre eles, segundo Eduardo Netto, cerca de 20 mil são oriundos de campanha voltada para o público estudante lançada há menos de um ano. Neste caso, os planos têm mensalidades que rondam os R$ 120 (sem adicionais), além de algumas restrições de horários. O posicionamento de marca da Bodytech, contudo, não foi alterado por conta da estratégia. “Não podemos de nenhuma forma entrar na guerra de preços. O nosso público é premium”, argumentou o diretor técnico da rede.

Netto também destacou a importância de novas modalidades “de curta duração e muita intensidade”, absorvidas pelas empresas do setor e cada vez mais exigidas pelo público. “Aulas coletivas e modalidades como zumba também estão em alta e ainda ajudam na retenção”, concordou Fernando Nero, da Bluefit.

Já para Vander Mattos, da Matteh Escola de Jiu Jitsu, a especialização de academias focadas em nichos específicos continua sendo um grande diferencial. “[Quando adotam] novas modalidades], muitas academias seguem propósitos puramente estéticos”, opinou.