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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva aceitou ontem o pedido de demissão do ministro da Defesa, José Viegas. A partir desta segunda-feira assume a pasta o vice-presidente da República, José Alencar, que vai acumular as duas funções.Antes de viajar para o Rio de Janeiro, Lula se reuniu com Viegas e Alencar em audiências separadas, no Palácio do Planalto, para acertar os detalhes da mudança. Depois do encontro com Lula, ainda no Planalto, Viegas e Alencar tiveram uma reunião com o ministro da Casa Civil, José Dirceu. As conversas continuaram no Palácio do Jaburu, residência oficial do vice-presidente, durante almoço do vice com o ex-ministro.José Viegas, desgastado com o caso do aparecimento de supostas fotos do jornalista Vladimir Herzog (torturado e morto pelo regime militar em 1975), antecipou sua saída do cargo.Nos bastidores, a saída de Viegas era dada como certa na próxima reforma ministerial, que deve ser feita no começo do ano que vem. Para não precipitar as mudanças e não causar um desgaste político, o Planalto decidiu pelo nome de Alencar para não ter que, provavelmente, nomear alguém para o ministério daqui a alguns meses. O Planalto diz que a nomeação do vice é em caráter definitivo, e não interino.Na carta de demissão, datada do dia 22 de outubro, Viegas assume a responsabilidade pela nota divulgada pelo Comando do Exército durante o episódio, apesar de não ter tido conhecimento prévio dela. Nas palavras de Viegas, a nota "representa a persistência de um pensamento autoritário, ligado aos remanescentes da velha e anacrônica doutrina da segurança nacional, incompatível com a vigência plena da democracia e com o desenvolvimento do Brasil no século 21".A nota foi distribuída pelo Centro de Comunicação Social do Exército (Cecomsex) no dia 17 de outubro, em resposta à reportagem do jornal Correio Braziliense, que publicou as supostas fotos de Herzog em cela no DOI-Codi. Depois de passar por análise da Agência Brasileira de Inteligência, o governo informou que as fotos não eram de Herzog e sim de um padre canadense. A viúva, Clarice Herzog, que havia reconhecido o marido inicialmente, também concluiu dias depois que as fotos não eram dele.O texto da nota gerou uma queda-de-braço entre Viegas e o comandante do Exército, Francisco Albuquerque, porque foi divulgado sem o conhecimento da Defesa e do Planalto. "Após uma reflexão mais prolongada a respeito das ocorrências desta semana, julgo necessária uma atribuição mais efetiva de responsabilidades com relação à nota emitida pelo Exército no último domingo", afirma Viegas na carta de demissão. Ele diz ainda ser inconcebível que, em pleno século 21, a nota do Exército se refira ao caso como "movimento subversivo" e "Movimento Comunista Internacional". "É inaceitável que a nota use incorretamente o nome do Ministério da Defesa em uma tentativa de negar ou justificar mortes como a de Vladimir Herzog". "É também inaceitável, a meu ver, que se apresente o Exército como uma instituição que não precise efetuar qualquer mudança de posicionamento e de convicções em relação ao que aconteceu naquele período histórico", diz o texto de Viegas.Por fim, o ex-ministro faz um desabafo e condena o fato de que, ainda hoje, há no Exército oficiais com o mesmo pensamento do regime militar. "Já é hora de que os representantes desse pensamento ultrapassado saiam de cena."O ministro da Educação, Tarso Genro, após encontro com Lula no Planalto ontem, elogiou a atuação de Viegas e disse que a escolha de Alencar foi perfeita. "Viegas foi um grande ministro e companheiro de governo. O ministro que entra é uma pessoa absolutamente credenciada do ponto de vista político-institucional e do ponto de vista da responsabilidade pública", disse Tarso Genro.Novo cargoFontes do Planalto dizem que Viegas, que é diplomata de carreira, pode assumir a embaixada do Brasil em Madri, na Espanha. Mas há também a possibilidade de José Viegas ir para Roma, na Itália, ou Paris, na França. Antes do anúncio da sua demissão, o ex-ministro se reuniu com assessores do ministério e agradeceu o trabalho da equipe.No balanço que fez de sua gestão, Viegas citou como ações vitoriosas a regulamentação da Lei do Abate, a solução para o problema da Base de Alcântara, o reajuste dos militares e o início do processo de reequipamento das Forças Armadas.