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SÃO PAULO - Se o transportador rodoviário de cargas brasileiro comparar o seu mercado com o dos Estados Unidos vai levar um susto diante dos números dessa atividade naquele país, a começar pelo volume da tonelagem transportada. Enquanto no Brasil o total de tonelagem movimentada por via rodoviária mal passa de 933 milhões, no mercado interno norte-americano esse número pode ser multiplicado por quase 12 vezes.

Números - Segundo a Ata (American Truck Association), que representa 37 mil transporadoras e cujos representantes passaram pelo país no mês passado, os Estados Unidos movimentaram no ano passado algo como 10,7 bilhões de toneladas de cargas via empresas de transporte rodoviário de cargas. E a tendência é esse número crescer cerca de 31% nos próximos 10 anos.

Um aspecto chama a atenção: no Brasil, dos 933 milhões de toneladas movimentadas, quase 300 milhões de toneladas foram transportadas pelos próprios donos da carga (um processo chamado carga própria e que consiste na movimentação feita por veículos dos próprios embarcadores, ou seja estabelecimentos industriais, comerciais e de prestação de serviços cujos departamentos de transporte funcionam como transportadoras mas sem registro ou personalidade jurídica semelhante), restando para as transportadoras o movimento de apenas 639 milhões de toneladas, segundo dados da CNT (Confederação Nacional do Transporte), o que distancia ainda mais as dimensões do mercado interno em relação ao americano.

Caminhão em estrada dos EUA

Os números do mercado americano também são gigantescos quando se verifica a quantidade de operadores naquele mercado. Lá existem 600 mil transportadoras de cargas contra cerca de 140 mil no Brasil. Pelo menos num aspecto, os dois mercados apresentam alguma semelhança: como aqui, cerca de 95% dos operadores são constituidos de micro e pequenas empresas. E no mercado brasileiro de transporte rodoviário de cargas, a tendência é o número de microempresas crescer ainda mais.

Diante de diversas circunstâncias e para a continuidade de seus serviços, os transportadores autônomos (uma legião superior a 733 mil profissionais, segundo dados da Agência Nacional de Transportes Terrestres) estão constituindo microempresas - é uma exigência cada vez mais disseminada no meio de quem possui uma carga para transportar, seja embarcador ou mesmo a própria transportadora que se utiliza de veículos de terceiros, como forma de reduzir os custos dos encargos sociais. Outra coincidência entre os dois mercados é a falta de profissionais. De acordo com um levantamento feito em 2004 pela Global Insight, os Estados Unidos têm um déficit de 20 mil motoristas de caminhões. E a previsão é de que até 2014 o mercado se ressinta com a falta de 111 mil desses profissionais.

No Brasil, guardadas a proporções, a situação é parecida e já começa a preocupar as transportadoras. Em algumas regiões há centenas de vagas para motoristas não preechidas por falta de profissionais capacitados. A dependência da população em relação ao transporte rodoviário de cargas também também não guarda grandes diferenças nos dois países. Nos Estados Unidos, 77% das comunidades dependem de entregas por via rodoviário. Aqui, essa dependência aproxima-se do total.

Possíveis similaridades entre os dois mercados parecem esgotar-se por ai. Os Estados Unidos contam com 3,4 milhões de motoristas de caminhões, enquanto no Brasil esse número com muito esforço pode chegar a 1 milhão - incluindo-se os empregados de empresas. A frota americana é um colosso de 26,5 milhões de caminhões utilizados em operações comerciais (frete), dos quais 3,5 milhões pesados e extrapesados. Ou seja, acompanhando a relação de tonelagem de transportando, a frota americana é quase 16 vezes o total de veículos de carga em operação no Brasil.

Obviamente, a distância entre as dimensões dos dois mercados também se reflete em grandes diferenças de receitas. O americano fatura com transporte rodoviário de cargas uma montanha de US$ 623 bilhões, contra algo em torno de US$ 15 bilhões do brasileiro.

(com Canal do Transporte)