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A estratégia de jamais manter os ovos “no mesmo país, área de oferta ou vertical” nunca foi tão importante para a empresa que leva o sobrenome de Marco Stefanini.

Pouco otimista quanto aos efeitos da retomada econômica sobre o setor da tecnologia, o fundador da maior multinacional de TI do Brasil comemorou a boa recepção do mercado frente às soluções disruptivas – que já representam 20% dos R$ 2,8 bilhões faturados pela Stefanini no ano passado – e os bons resultados obtidos nos mais de 60 países onde atua (40 deles com subsidiárias). Entre todos, o Brasil é classificado como o mais complicado de se fazer negócios, ao lado da Argentina.

“Há uma pressão de custos brutal, uma lealdade bem menor e o bom serviço não é diferencial”, disparou o empresário, durante entrevista ao DCI. O interesse no mercado asiático, os efeitos da terceirização e o apetite eterno por aquisições também estiveram em pauta.

Vocês já possuem filiais em 40 países. Essa conta deve aumentar em 2018?

Não é um target, precisamos antes aumentar a presença, faturamento e grau de inovação nesses países. Mas na Ásia nossa presença deve crescer nos próximos anos. Já estamos nos principais, o que falta é o Japão. Operamos lá atendendo dois clientes, mas sem subsidiária. Já na China temos uma operação relativamente grande, com quase 300 funcionários, mas sempre atendendo empresas globais, e não o mercado chinês. Sem dúvida a China será um grande motor, mas é preciso aprender a trabalhar. Lá é um Brasil extremado.

O perfil do empresário brasileiro difere muito do visto em outros mercados?

O mercado de serviços de TI brasileiro é bem maduro, mas ainda tem diferença de perfil e posicionamento. Certamente Brasil e Argentina são os dois mais complicados de fazer negócio entre os 40 que atuamos. Há uma pressão de custos brutal, um turnover de contratos muito grande e uma lealdade bem menor. Na Alemanha, por exemplo: é difícil começar um contrato, mas se começa, o cliente é leal. Agora o brasileiro é o que mais troca. Você pode prestar um bom serviço, mas aqui isso não é diferencial.

No ano passado nós tivemos mudanças na lei de terceirização. Este arcabouço está incentivando novas oportunidades de negócios?

A terceirização não vai gerar negócios rapidamente. A reforma trabalhista é mais efetiva, mas vai na mesma linha. A médio e longo prazo a terceirização pode ajudar, mas não é algo como uma reforma tributária, que traria impacto no ano seguinte. Ela não é um grande motor de negócios, mas dá mais segurança. Qualquer empresa com operação no Brasil e fora tem um número de ações muito maior aqui. Não digo o dobro, mas 30 ou 40 vezes mais ações, sendo que a empresa é a mesma. Será que todo mundo opera de forma ilegal aqui e legal lá fora? Claro que não.

Qual foi o crescimento do Brasil em 2017 [globalmente a receita da Stefanini subiu 7,5%]?

Aqui nós crescemos 7%, ficou bem em linha com o crescimento global. O Brasil é metade do faturamento total. Em 2017 quem acabou se destacando foi a América Latina sem Brasil, que cresceu uns 35%.

E qual a estimativa de crescimento global em 2018? Dá para romper os R$ 3 bilhões em faturamento?

Estamos estimando mais ou menos 10%, mas se a gente fizer uma grande aquisição esse número sobe. Já era para ter quebrado a barreira dos R$ 3 bilhões, mas como algumas regiões estão em nível bom eu acredito que vamos.

Qual será o efeito do reaquecimento da economia sobre os negócios no Brasil?

2018 ainda vai ser difícil. A retomada econômica do País não trará, necessariamente, uma retomada na nossa área. As grandes empresas têm uma inércia quando elas estabelecem certos modelos: não é porque a economia cresce que eles mudam imediatamente. O ano de 2017 foi importante, mas também foi muito difícil do ponto de vista financeiro. Estamos acostumados a crescer em taxas maiores, e este foi o quarto ano consecutivo de crise para a TI, que vem apanhando desde 2014. Agora do ponto de vista da consolidação das ofertas digitais ele foi fantástico, sobretudo no segundo semestre.

Dê exemplos.

A [plataforma de inteligência cognitiva] Sophie está rodando em mais de 20 clientes, incluindo a Caixa. Nas soluções de indústria 4.0 e Internet das Coisas (IoT), tivemos vários cases tangíveis. A mesma coisa com [as tecnologias] para back office digitalizado ou banco digital.

Ainda há muito espaço para crescer no setor financeiro?

Tem bastante. Antigamente nossa oferta era focada em grandes bancos, que contratavam muito serviço. Hoje os pequenos e médios querem produto. Como temos uma oferta completa de banco digital, os pequenos e médios se tornam um ótimo target. No Banco Original, por exemplo: fizemos toda a parte mobile e de canais de atendimento ao cliente. Para nós é uma grande vantagem ter desenvolvimento e produtos próprios.

Qual a divisão entra as receitas tradicionais e as mais inovadoras na Stefanini?

Mesmo os mais tradicionais como o service desk [suporte especializado] ou o field service [serviços de campo] já têm um grau significativo de digital. A opção da empresa é que tudo tenha conteúdo digital, é só uma questão de grau e público. Hoje o transformador [como a Stefanini chama os serviços tradicionais de TI corporativo] é 80%, e o disruptivo é mais ou menos 20%. Está acelerando muito rápido. Há dois anos o disruptivo era 2% ou 3%.

Qual a principal linha de receita individual?

Aplicações. É algo bem amplo: há as aplicações sob demanda, toda a parte de desenvolvimento digital, implantação de pacotes de gestão. Também temos nossos produtos de aplicação, como o core bancário. Mas somos bem divididos: ainda temos o BPO, a infraestrutura de tecnologia, toda aquela parte digital. É bem distribuído. Sempre gostamos de não ter todos os ovos na mesma cesta.Eles não estão todos no mesmo país, nem na mesma área de oferta ou vertical de negócios.

Sobre aquisições: há chance da Stefanini fechar uma nova compra ainda no primeiro trimestre deste ano?

Nesse trimestre não. Esses processos são muito longos e o filtro é muito grande. Ano passado a gente só fechou com a [consultoria de marketig digital] Gauge, mas fizemos contato inicial com cerca de 100 empresas. Destas, conversamos mesmo com umas 20 e fizemos proposta para quatro ou cinco. Houve uma bem interessante, grande. Era uma empresa europeia de US$ 500 milhões de faturamento. Fizemos uma proposta, mas o preço estava muito alto. Aquisição é caro e o retorno demora, mas faz parte do nosso plano estratégico continuar comprando.

Há alguma empresa que está com uma proposta em mãos neste momento?

Tem, mas em fase bem inicial. É uma empresa de fora do país. Mas depois que a gente fechar o preço, só de due dilligence vão uns dois meses.