Publicado em

Mesmo com os esforços para inclusão do País no mapa da internet das coisas, as prefeituras brasileiras ainda tentam superar uma série de barreiras para viabilizar projetos de cidades inteligentes.

A dificuldade ficou latente durante o Smart City Expo, que reuniu players de tecnologia e gestores públicos em Curitiba nesta semana. Fatores como a falta de recursos, a interrupção de projetos após trocas de gestão e sobretudo o marco legal para parcerias público-privadas (PPPs) foram classificados como entraves.

"PPP para smart city não é nada fácil", afirmou o superintendente de Ciência, Tecnologia e Inovação de Florianópolis, Marcus J. Rocha. "O mais óbvio é começar pela iluminação pública, porque nela é mais claro o mecanismo de remuneração ao parceiro privado", sinalizou o gestor ao DCI.

A indefinição quanto ao retorno também foi destacada pelo diretor comercial e de inovação da Engie Brasil, Gabriel Mann, que declarou interesse na concessão do serviço de iluminação inteligente em cidades "com 20 mil pontos de luz para cima". Citando Belo Horizonte como exemplo de processo conduzido de forma segura, a empresa monitora a formatação de editais em capitais como Salvador, Brasília, Rio, Porto Alegre e Teresina.

Em Florianópolis o modelo da PPP também está em estudo, assim como em Curitiba, onde um grupo intersecretarial vem "levantando tecnologias" para este fim, de acordo com o presidente da Agência Curitiba de Desenvolvimento, Frederico Lacerda. "Com os sensores [acoplados às novas lâmpadas LED], deixamos de trabalhar com estimativas de consumo trabalhamos com o consumo real."

Em Aracaju, o prefeito Edvaldo Nogueira afirma que terá um parceiro privado "até, no máximo, janeiro de 2019" realizando a telegestão (ou monitoramento e gestão em tempo real) da iluminação. Otimista, Nogueira pretende que a parceira acumule, no futuro, a concessão de outros serviços inteligentes em segurança pública e mobilidade.

No caso de São José dos Campos, a gestão municipal já decidiu que instalará 75 mil novas lâmpadas LED na cidade, mas sem o acompanhamento que tornaria o parque "inteligente", diminuindo de forma automática o consumo de acordo com horário e fluxo.

"Faremos a princípio sem telegestão. Ela traria economia, mas é mais importante para o parceiro de uma PPP, que precisa economizar cada centavo para garantir retorno", afirmou o prefeito da cidade, Felício Ramuth, lembrando que a tecnologia sofrerá saltos de inovação. "Um contrato longo nos deixaria para trás".

Outras verticais

Além da iluminação, uma série de outros serviços públicos será transformada através do uso de sensores e da coleta e análise de dados. "Uma cidade inteligente oferece informações para o ente político tomar boas decisões. Hoje, isso passa pela tecnologia", afirmou Marcus Rocha, de Florianópolis.

A gestão florianopolitana está trocando as plataformas de gestão da prefeitura para se adequar ao grande volume de dados gerado por serviços inteligentes. Já o novo sistema de controle semafórico da capital (que funcionará em toda a cidade em 60 dias) terá capacidade de receber informações de sensores de densidade de tráfego ou temperatura futuramente instalados nas ruas.

A possibilidade de concessão do sistema de semáforos está no radar da Engie Brasil: a empresa "tem conversado com cidades como Florianópolis e São Paulo, que acabou de lançar um projeto", de acordo com Gabriel Mann. A intenção foi revelada mês passado.

"Queremos entrar em mais duas cidades ao longo do ano", afirmou o executivo da Engie. A empresa já realiza o controle semafórico inteligente em 190 cruzamentos de Niterói, não via PPP, mas através de contratação com recursos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

São José dos Campos (SP) possui um piloto de controle semafórico em parceria com o Google e lançará, ainda neste mês, um app próprio que mostrará a posição em tempo real da frota de ônibus (antes a Moovit prestava o serviço), que já é sensorializada.

Em Curitiba, uma das apostas para a mobilidade urbana é "integrar toda a rede de transporte em uma única conta dentro de um app", revelou Frederico Lacerda. Em fase de estudos, o modelo é inspirado em ferramenta da portuguesa Cascais, que agrega serviços de compartilhamento de carros, aluguel de bicicletas, estacionamento e transporte público em um mesmo ambiente.

Secretário de defesa social e trânsito do município paranaense, Guilherme Rangel também afirmou que Curitiba deve ser a primeira grande cidade do País com 100% de radares OCR; hoje ela tem 600. O equipamento é capaz de efetuar reconhecimento óptico em tempo real com ajuda de câmeras ligadas à rede.

Todo o ecossistema de elementos conectados à internet através de sensores forma aquilo que é chamado pela indústria de internet das coisas. A vertical de mercado está no radar do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que criou um plano de fomento para a área no ano passado.

A reportagem solicitou ao banco a lista das iniciativas em cidades inteligentes mapeadas que poderiam ser incentivadas através de consultoria técnica e linhas de financiamento específico, mas não recebeu um retorno até o fim da edição. /O repórter viajou a Curitiba a convite da Smart City Expo.