Publicado em

Desde 2013 à frente da subsidiária brasileira da SAP, gigante alemã do ramo de software, Cristina Palmaka acredita que o País terá o crescimento “que precisa e merece” em 2018, mas faz um alerta para as empresas que deixaram de investir em inovação durante a crise: elas vão ficar para trás.

Em entrevista exclusiva ao DCI, Cristina analisou os sinais de recuperação dados pelo comércio e indústria e explicou como o SAP Leonardo – grande aposta da multinacional em 2017 – pode colaborar até mesmo com a diminuição do preconceito em processos seletivos. Nomeada recentemente para o “Conselhão” do presidente Michel Temer, a executiva também explicou como a tecnologia da empresa ajudou a parar Messi em 2014.

Qual balanço pode ser feito do ano que passou?

A perspectiva sempre tem o entorno político e econômico, mas cada segmento passa por uma fase. Há os extremamente afetados nos últimos anos, mas outros seguem crescendo de forma fantástica. Então colocamos foco em duas vertentes: uma para as empresas que não estão no melhor momento, com a tecnologia como habilitador para baixar custos e aumentar produtividade. Já a segunda vertente é onde podemos aportar conhecimento. Há empresas que sabiam que não era o momento mais apropriado, mas investiram, até porque havia menor competição com outros projetos. Quando o País voltar elas estarão na vanguarda.

Falando em fases diferentes: fora o agro, há quem se destaque pela resiliência?

O agro é um segmento que olha transformação digital de forma diferente. Temos projetos com a Citrosuco [que utiliza a internet das coisas na produção e monitoramento logístico] e a Embrapa [que viabilizou o Programa Nacional de Controle de Qualidade do Leite através de solução da empresa], mas outros segmentos também estão em transição. O varejo está começando a olhar e-commerce e multicanalidade de forma mais agressiva. Temos o Carrefour como referência e agora o Grupo Martins, que está fazendo expansão para o e-commerce. O setor financeiro segue forte: ele sempre encarou a digitalização como o centro. Já a parte de commodities e manufatura pesada, que sofreu muito nos últimos três anos, tem voltado a investir mesmo sem ter colhido grandes frutos de crescimento. Há dois anos eles só falavam em reduzir empregados. Agora eles querem falar de inovação.

As indústrias 4.0 no Brasil ainda são raras...

A indústria 4.0 nasceu na Alemanha, onde está nossa origem, então há uma oportunidade enorme. As empresas vão chegar lá. Temos discutido vários projetos. O Boticário começou a [automatizar] as gôndolas, mas a ideia é fazer um projeto em toda a cadeia até chegar no 4.0. A rastreabilidade na indústria farmacêutica, por exemplo, é algo que precisa ser feito, talvez em algum momento a regulamentação cobre. Têm empresas que fazem para se adiantar, enquanto outras do segmento nem estão olhando inovação.

O fosso digital entre pequenas e grandes aumentou?

As grandes no final do dia fazem o mínimo, enquanto as médias e pequenas negociam sobreviência versus investimento. Na crise elas contraíram, mas a volta também é rápida. Com o advento da nuvem há uma democratização e hoje o nosso maior número de clientes está nesse patamar. Em soluções 100% em nuvem você não precisa de pessoal de tecnologia nem se preocupar com infraestrutura, a SAP faz tudo. A solução é a mesma na pequena e na grande, então o distanciamento vai deixar de existir. Temos participação muito representativa nas grandes companhias e média nas menores, mas crescemos por volta de três dígitos no ano contra ano neste segmento.

Quanto do faturamento da SAP Brasil já vem da nuvem?

Não abrimos números, mas tem crescido muito mais rápido. Nos últimos sete trimestres crescemos três dígitos até o sexto. Pelo patamar mais alto, crescemos dois dígitos no último trimestre [entre julho e setembro]. Fala-se muito em nuvem, mas ela é um arcabouço de soluções: seja ERP na nuvem, e-commerce, só infraestrutura, a parte de RH... Tudo que tem de inovação a gente aporta na plataforma em nuvem.No RH, por exemplo: você pode trazer componentes do SAP Leonardo como machine learning para o recrutamento e deixar a máquina fazer a busca. Isso evita o chamado unconscious bias, o preconceito escondido. A tecnologia pode te ajudar a trazer o talento, e não o esteriótipo.

Qual a diferença da receita tradicional frente à oriunda da nuvem?

No on-premise [tradicional] ele paga a licença, é um investimento em um ativo. Na nuvem vira despesa, há uma mensalidade. Tem mudança financeira quando recebo diluído ou quando o cliente compra a licença, mas estamos arrumando o portfólio há dez anos, não é que de repente viramos uma empresa de nuvem. Estamos tirando o pé [do licenciamento] de forma inteligente, até que ele se torne irrelevante. Hoje ainda há relevância e é bom ter opção, porque nem todo cliente quer nuvem. Não tem receita única: a maioria vai migrar, mas alguns talvez não precisem. Nós também não pressionamos. Fora isso é raro novos clientes que não entrem na nuvem. No Brasil demorou um pouco porque há dois anos nuvem ainda era complexo de explicar. Hoje essa dúvida saiu das discussões.

Qual a fatia do Brasil nas receitas da SAP na América?

Não abrimos, mas somos importantes [nos nove primeiros meses de 2017a SAP registrou receita de 1,358 bilhões de euros na América, excetuando os EUA; globalmente a companhia faturou 16,656 bilhões de euros entre janeiro e setembro passados].

A companhia estuda novos mecanismos trabalhistas como trabalho intermitente ou remoto?

Com certeza. A legislação estava muito desatualizada. Em tecnologias temos mecanismos para um home-office estruturado. Com o celular você pode trabalhar em qualquer lugar, então a flexibilidade será fundamental, até porque temos participação de millennials muito grande. Será um avanço.

Como foi a relação com startups em 2017?

Nosso objetivo é que startups possam desenvolver na nossa plataforma para conectar com clientes. Temos 100 startups em análise e 12 já conectadas. Não fazemos aporte financeiro, mas a validação tecnológica. Para elas há possibilidade de ter o ativo mais importante, que é o acesso à minha base de clientes. Em alguns casos a gente poderia fazer a mesma solução, mas a startup tem a agilidade, então buscamos a colaboração: o plano para 2018 é trazer mais. Em 2017 fizemos um aporte de R$ 40 milhões no SAP Labs [laboratório da multinacional na gaúcha São Leopoldo] que está sendo utilizado exatamente para suportar startups, com foco em agronegócio e internet das coisas.

O Flamengo adotou SAP para a gestão recentemente e o Grêmio já utiliza tecnologia para melhorar a performance em campo. A SAP planeja algo para o esporte em ano de Copa do Mundo?

No segmento esportivo temos muita coisa: a NFL, a NBA, tênis. Há muito de analítico nesse mundo. A seleção alemã roda o mesmo software que o Grêmio: ela sensorizou as roupas dos jogadores para saber quão rápido eles estão correndo e montar parâmetros. [Na final da Copa de 2014 contra a Argentina] eles fecharam uma estratégia para enfrentar o Lionel Messi. Sabia-se que nenhum jogador da Alemanha conseguiria alcancá-lo, então eles montaram uma tática para fugir do “mano a-mano”: foi tudo analítico, com ajuda de dados e sensores. No Brasil isso ainda é incipiente, mas é algo que vai profissionalizar.