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BRASÍLIA - Apenas 47% da população brasileira, ou seja, 95 milhões de habitantes, têm acesso à rede geral de esgoto. E com o atual nível de investimento em obras de saneamento, o Brasil só conhecerá a universalização do acesso ao esgoto tratado no ano 2122. Os dados fazem parte da Pesquisa Trata Brasil: Saneamento e Saúde, divulgada no início de novembro pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Mas os moradores das áreas rurais e das periferias dos grandes centros urbanos não podem esperar até 2122 para terem direito de usufruir serviço de saneamento básico. Então, qual a solução até lá? Investir em experiências alternativas já desenvolvidas no País, como as tecnologias sociais, soluções sustentáveis eficientes, simples e baratas.

O Instituto de Permacultura e Ecovilas do Cerrado (Ipec) em Goiás, por exemplo, desenvolveu, há mais de quatro anos, o sanitário compostável, batizado por seus inventores de Húmus Sapiens. A tecnologia transforma, de forma inteligente e eficiente, dejetos humanos em adubo orgânico. Esses dejetos, quando jogados na natureza de forma incorreta, geram poluição, proliferação de doenças e gasto desnecessário de água potável.

Os sanitários compostáveis secos do Ecocentro Ipec são uma opção barata para lidar com dejetos humanos em locais onde não há disponibilidade de água ou de tratamento sanitário de esgoto. Em zonas rurais ou em periferias urbanas, essa tecnologia dispensa o uso de descarga e de tubulações de água.

São inúmeras as vantagens do sistema alternativo: não polui o solo, utiliza resíduo humano, não utiliza água e não tem cheiro. O custo da construção do sanitário compostável é 40% menor do que a construção convencional. O sistema também possibilita manter o ciclo natural do alimento, que se torna resíduo, húmus, adubo e, ao final do processo, torna-se alimento novamente.

Leandro dos Santos Jacinto pode comprovar a eficácia da tecnologia social. Proprietário da Chácara Asa Branca, localizada próxima a Brasília, ele juntamente com outros adeptos do sistema foram conhecer, in loco, o sanitário compostável desenvolvido por técnicos do Ipec.

“Adaptei o conhecimento à minha realidade. O grande ganho que tivemos foi o não desperdício de água potável em descargas. Além disso, em contrapartida, o sistema nos gera um produto, o adubo orgânico, que usamos nas árvores frutíferas da chácara”, explica Leandro. Vale ressaltar que quando um sanitário convencional é utilizado, aproximadamente vinte litros de água potável são poluídos e desperdiçados na descarga.

Funcionamento

O mecanismo é muito simples e conta com duas câmaras de compostagem. Os dejetos humanos caem em uma câmara, com capacidade de uso de seis meses. Ao enchê-la, a câmara é lacrada e substituída por outra. O sistema utiliza basicamente recursos naturais. O sol aquece uma placa metálica, chegando à temperatura de 762 graus. O ar escapa por uma chaminé, não deixando o odor nos sanitários.

O segredo do Húmus Sapiens está na adição de serragem, que ajuda eliminar os microrganismos, causadores de doenças presentes nas fezes humanas. O composto é retirado da câmara e levado até minhocatários, onde vira húmus, rico composto orgânico muito utilizado como adubo orgânico.

A idéia simples e original dos sanitários compostáveis foi implantada no exterior. Por meio de programa internacional, técnicos do Ipec levaram a tecnologia social para o Haiti, onde foram realizados encontros de capacitação, construção de sanitários e conscientização da comunidade com relação à importância dessa tecnologia.