Se em algum momento você já se sentiu apaixonado por duas pessoas ao mesmo tempo, saiba que está tudo bem. Você não está maluco, muito menos doente – só está amando mesmo. No entanto, terá que lidar com uma configuração diferente, chamada poliamor. Um modelo de relacionamento não-monogâmico onde as relações amorosas ou sexuais envolvem mais de duas pessoas – podendo ser homossexuais, heterossexuais, bissexuais ou pansexuais. Só tem uma coisa que importa: carinho e consentimento de todas as partes.
Para desmistificar esse tema que ainda gera confusão em muitas pessoas, o Jornal DCI consultou especialistas para provar que toda forma de amor é justa.
Calma! O que é poliamor?

Deborah Anapol, autora do livro “Amor sem limites”, definiu poliamor como a possibilidade de ter dois ou mais relacionamentos simultâneos, que englobam afeto e sexo. Diferente da monogamia, onde duas pessoas vivem uma relação exclusiva e não existe a possibilidade de se ter parceiros sexuais fora do casamento, essa, é a opção que a maioria dos casais praticam (ou tentam!). Entretanto, o poliamor, ou a não-monogamia, também é uma das configurações de relacionamento que temos em nossa sociedade.
Diferente de traição, que é a não monogamia em uma relação monogâmica, todos os envolvidos na relação estão cientes dos múltiplos parceiros. Nesse tipo de relacionamento, é preciso muitos acordos e diálogos.
O Poliamor não é específico a nenhum gênero e rejeita a ideia de exclusividade; qualquer um pode ter múltiplos parceiros e de qualquer gênero. É importante distinguir poliamor de poligamia. A poligamia é uma prática religiosa que envolve o casamento com múltiplas pessoas do sexo oposto.
Poliamor é saudável?

Viver em um relacionamento poliamoroso, é tão saudável quanto em qualquer outra configuração, tudo depende de como você lida com a questão. O que torna um tipo de vínculo saudável ou não é a qualidade da intimidade entre os parceiros. A atenção, o cuidado, o carinho, o diálogo, são todas características de um bom relacionamento – seja entre uma, duas, ou mais pessoas.
Assim como em qualquer outra área da vida, cada indivíduo vai escolher a maneira de se relacionar que melhor lhe caiba. Seja no poliamor, na monogamia, em relacionamentos abertos ou em outras opções, só a pessoa pode decidir.
Ciúmes: o combinado não sai caro
Uma famoso poeta romântico inglês, chamado Percy B. Shelley escreveu:
“O amor perde sua essência sob constrangimento; sua própria essência é a liberdade. Não é compatível nem com obediência, ciúme, nem medo. É lá muito puro, perfeito e ilimitado quando seus devotos vivem em confiança, igualdade e sem reservas”.
Apesar de linda, essa é uma afirmação difícil de se colocar em prática em qualquer relacionamento da vida. No entanto, muita gente pensa que os adeptos do poliamor não sentem ciúmes – e pasmem! – estão redondamente enganados. Mas, assim como nas configurações monogâmicas, o ciúme é uma atitude a ser trabalhada no relacionamento poliamoroso.
O americano, Dr. Ken Haslam, anestesista aposentado que tem vivido e ensinado sobre multi-parceria responsável, ética e poliamor escreveu um manual de pilares para fazer a prática funcionar, e uma delas traz à tona a transparência. “Uma lição que a comunidade poli pode ensinar à comunidade mono é como lidar com a verdade não adulterada nos relacionamentos”.
Então sim, é preciso desenvolver as habilidades relacionadas à comunicação, para que as partes encontrem um bem comum, e acordem as decisões para que ninguém fique emocionalmente ferido. Afinal, “o combinado não sai caro”.

Para a psicóloga Daniela de Oliveira, adotar um relacionamento tem a ver com autoconhecimento. “Nos conhecer permite com que entendamos nossas necessidades e limites, a ter parcimônia em nossas reações, voltar atrás quando erramos, pedir desculpas quando necessário, perdoar, nos expressar e trabalhar em cooperação com as pessoas que escolhemos para nos relacionar e dessa forma construir um futuro em que todos possam se desenvolver enquanto seres humanos”.
Principais pilares do poliamor

- Autenticidade: esteja sempre confortável com você;
- Confiança: acredite nos seus parceiros;
- Honestidade: é a essência do poliamor;
- Liberdade: ninguém é posse de ninguém;
- Sexualidade: todos devem estar de acordo em relação às questões sexuais do relacionamento.
Como lidar com o preconceito?
De acordo com especialistas, os relacionamentos românticos e monogâmicos têm perdido força e cada vez mais as pessoas têm buscado a felicidade em primeiro lugar. No entanto, se para você, isso significar um relacionamento poliamoroso, provavelmente terá de travar uma batalha intensa com o julgamento da sociedade.
Para Teresa Rosa, o poliamor amplia a maneira de ver e sentir o amor. Corre na contra mão, com conceito livre e isso é novo para muitos olhos. E por ser tão livre, causa impacto, resistência e claro, preconceitos. “Viver o poliamor em uma sociedade que idealiza principalmente o amor romântico exige dos poliamoristas uma constante desconstrução e enfrentamento das pressões sociais que envolvem a compreensão do amor daquela pessoa”.

Uma forma de adotar a prática e ainda assim lidar com a pressão social é buscar ajuda psicológica. Para o psicólogo Pedro Sammarco, fazer terapia ajuda o indivíduo a se conhecer melhor e ser mais autocentrado. “Um bom tratamento tende a desenvolver empoderamento e fortalecimento da autoestima”.
E Daniela complementa: “Se uma pessoa confia que o poliamor é a melhor forma de relacionamento para si, ela deve se concentrar em vivê-lo, sem se ocupar do que vão pensar outras pessoas. O mais importante é que funcione para cada um dos envolvidos e que possam ser felizes. Ninguém deveria ser autorizado a dizer o que funciona para o outro se, o que se vive, não ameaça a vida e a segurança de ninguém”.
Será que o poliamor é a melhor opção para mim?

É necessário perceber até que ponto você se conhece. Saber o que é aceitável ou não para você em um relacionamento e quais são os seus limites é muito importante. Agora, se você acredita que é possível se relacionar emocionalmente e afetivamente com mais de uma pessoa ao mesmo tempo, respeitando as regras pré estabelecidas, sem mentiras e traições, já terá sua resposta.
Amor não se trata de posse

Falando de liberdade, é importante entender que o amor não se trata de posse. Uma vez que se entende isso, as portas para o poliamor ficam ainda mais acessíveis. De acordo com os especialistas, este é mais um processo de autoconhecimento.
No momento em que a pessoa aprende a amar a si mesma, ela passa a aceitar mais os processos da vida. E entender que os caminhos se cruzam e podem ficar entrelaçados por longos períodos de tempo ou não, é uma das descobertas. Para Daniela, quando existe o autoamor, a pessoa aprende a amar o outro querendo sua felicidade, mesmo que para isso, não exista a continuidade do relacionamento. “Se livrar do sentimento de posse e entender os rumos da vida, nos torna seres humanos melhores para nós mesmos e para os outros. Qualquer um é livre para ir embora a hora que quiser e a cada dia, decidimos quem está ao nosso lado. E o mais bacana de tudo isso, é que podemos escolher a(s) mesma(s) pessoa(s) todos os dias para o resto de nossas vidas (ou não)”.
Amor é amor!

Não existe nenhuma evidência de que a monogamia é melhor para longevidade, felicidade, saúde, satisfação sexual ou intimidade emocional. Assim como não existem comprovações de que o poliamor seja melhor. Então, é preciso ter em mente que a configuração do relacionamento é uma escolha exclusiva de cada pessoa.
Também é importante frisar que não é porque o relacionamento não é monogâmico que não é um relacionamento. Existe um vínculo estável e profundo entre os envolvidos, já que é uma relação sustentada pelo afeto, respeito e amor. Histórias são contadas, famílias são formadas e cada um pratica a sua forma de felicidade.
Fontes: Daniela de Oliveira é psicóloga clínica integrante do Ambulatório de Medicina e Estilo de Vida do Hospital das Clínicas. Foi discípula de Stanley Keleman em Psicologia Formativa e Diálogos Formativos no Center for Energetic Studies em Berkeley, Califórnia | Pedro Sammarco é psicólogo da clínica digital de psicoterapia Telavita, mestre e doutor em psicologia social | Teresa Rosa, Psicóloga da Clínica Médico para Todos.