Ritmo lento da indústria ameaça retomada da atividade em 2018

Às vésperas do final do ano, a indústria continua com indicações de que sua recuperação está lenta, gradual e concentrada em poucos segmentos.

São Paulo – Às vésperas do final do ano, a produção industrial continua com indicações de que sua recuperação está lenta, gradual e concentrada em poucos segmentos, já trazendo preocupações em relação à capacidade de uma retomada mais consistente a partir do próximo ano. Desde o início de 2017, o resultado da indústria geral vem apresentando quedas na comparação com o trimestre imediatamente anterior, considerando os devidos ajustes sazonais. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), após uma alta de 1,4% entre janeiro e março, a indústria desacelerou seu ritmo para 1,1% entre abril e junho, e agora avançou apenas 0,9%, de julho a setembro. “O desempenho geral não vem entusiasmando, sem elementos que configurem uma recuperação consolidada, com robustez”, aponta o economista-chefe do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), Rafael Cagnin. Levantamento do IEDI, feito a pedido do DCI, aponta que, entre os 24 ramos pesquisados pelo IBGE, apenas quatro (os segmentos de fabricação de móveis; informática, produtos eletrônicos e ópticos; de veículos automotores, reboques e carrocerias; e de produtos alimentícios) apresentam uma evolução positiva neste ano, trimestre contra trimestre anterior na série com ajuste.

“Os setores com bom desempenho, de forma consistente, ao longo de 2017, são poucos”, afirma Cagnin. Ele destaca os bens duráveis, puxados por móveis, automóveis e eletroeletrônicos, beneficiados pela melhora do cenário de crédito, sobretudo pela redução das taxas de juros. Outro segmento que vem recuperando, trimestre a trimestre, é o de alimentos, ajudado pela queda da inflação. “No mais, há muita volatilidade, setores que crescem num mês, mas recuam no seguinte, enquanto outros seguem com dificuldade de sair do terreno negativo”, avalia.  Nos doze meses encerrados em setembro, a produção de bens de consumo duráveis se destaca pela alta de 8,9%, seguida por bens de capital (+3,9%). No entanto, bens intermediários e semiduráveis e não duráveis têm queda no período, respectivamente, de 0,3% e 1,1%.

Incertezas

Por mais que o pior da recessão econômica tenha passado, e a indústria consolide este ano ao menos a volta do crescimento da produção – após os tombos de 6,6% (em 2016), de 8,3% (em 2015) e de 3,2% (em 2014) -, as incertezas no radar político, sobretudo em um ano de troca no comando do Palácio do Planalto, prejudicam previsões mais otimistas para 2018.  “A indústria deverá ter mais um ano [2018] de crescimento modesto, no aguardo do desfecho das eleições”, ressalta o economista-chefe da Nova Futura Corretora, Pedro Paulo Silveira. “Ninguém espera por uma recuperação rápida, abrupta, mas por um ritmo baixo de crescimento”, diz ele, projetando que a produção em 2018 poderá crescer 1,5%, patamar inferior, inclusive, ao estimado para 2017, de alta de 1,8%. De forma consolidada, os analistas consultados pelo Banco Central para o Boletim Focus estimavam, na última edição do documento, de 27 de outubro, que a produção deverá crescer 2% este ano e 2,9% em 2018.

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calculadoraEstímulos da indústria

Independente do ritmo, a indústria passou a respirar e deverá colher de forma mais consistente estímulos como o da queda dos juros, que reduz o custo do capital, ao longo do ano que vem. “Olhando numa perspectiva de longo prazo, mais do que numa avaliação trimestral, ainda vamos ter alguns efeitos positivos a captar de forma mais clara, que podem ajudar a recuperar a demanda”, pondera o economista da Az Quest, André Muller. Já o economista-chefe da Quantitas Asset Management, Ivo Chermont, assinala que a evolução de bens de capital “traz boas perspectivas no que se refere ao futuro próximo”.

Produção da indústria sobe menos que esperado

A produção industrial voltou a subir em setembro após uma pausa no mês anterior, porém com resultado abaixo do esperado. Segundo o IBGE, houve uma alta 0,2% em setembro, enquanto os analistas consultados pela Reuters apontavam alta 0,6%. “A indústria vem mostrando algum tipo de melhora, mas num ritmo lento e gradual. O cenário não mudou e esse é o perfil do segmento”, diz o coordenador da pesquisa no IBGE, André Macedo. Ante setembro do ano passado, houve avanço de 2,6%, também aquém da projeção dos analistas. Em setembro, somente a categoria de Bens Intermediários teve alta sobre agosto (+0,7%). Bens de consumo (-0,7%) e de capital (-0,3%) registraram retração. Mesmo com a melhora da confiança industrial, segundo a Fundação Getúlio Vargas, a recuperação é incerta. “A indústria é um setor que ainda não tem fôlego para trajetória de recuperação consolidada. A questão é que o mercado doméstico ainda não está consolidado e aquecido, até pelo perfil de contratações informais”, completou Macedo.

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