Gasolina com mais etanol pode estragar alguns carros; governo quer elevar mistura para 32%

Mudança na gasolina com mais etanol pode elevar consumo e desgastar peças do carro

O governo federal avalia aumentar de 30% para 32% a quantidade de etanol anidro misturada à gasolina comum vendida nos postos brasileiros. A mudança pode ajudar a reduzir a dependência do petróleo, mas também acende um alerta para motoristas, principalmente aqueles que possuem carros antigos, importados ou desenvolvidos para trabalhar com uma concentração menor do biocombustível.

Quais carros podem sofrer com a gasolina E32?

Os veículos mais vulneráveis são aqueles que não foram projetados ou calibrados para trabalhar com uma quantidade elevada de etanol na gasolina – aqueles fabricados há 20 ou 30 anos. De acordo com o mecânico Edgar Ribeiro, de 65 anos, nos veículos flex e nos modelos nacionais mais modernos, a tendência é que a nova gasolina E32 não provoque grandes problemas. “Esses automóveis contam com sensores e sistemas eletrônicos capazes de identificar a composição do combustível e adaptar o funcionamento do motor”explica.

No entanto, quando falamos de carros antigos, a preocupação deve aumentar. A lista inclui automóveis com carburador, modelos equipados com injeção eletrônica das primeiras gerações e importados fabricados para mercados onde a gasolina possui pouco ou nenhum etanol.

“Esses automóveis podem não conseguir corrigir automaticamente a quantidade de combustível enviada ao motor. Quando isso acontece, a mistura de ar e combustível pode ficar inadequada, provocando engasgos, falhas na aceleração, oscilação da marcha lenta e dificuldade para ligar o veículo, especialmente pela manhã”, esclarece o profissional.

Segundo ele, nos carros modernos, esse ajuste é feito pela Unidade de Controle Eletrônico, conhecida como ECU. O sistema recebe informações de sensores e calcula a quantidade necessária de combustível, o momento da ignição e outros parâmetros do motor. Nos modelos mais antigos, essa capacidade de adaptação pode ser limitada ou simplesmente não existir.

A alteração não significa que todos os carros antigos apresentarão defeitos imediatamente. Os efeitos dependem do projeto do motor, do estado de conservação do veículo, dos materiais utilizados nas peças e da frequência de abastecimento.

Atualmente, a gasolina comum e a aditivada comercializadas no Brasil possuem 30% de etanol anidro. O percentual está em vigor desde 1º de agosto de 2025. A legislação brasileira já permite que a mistura alcance até 35%, desde que novos testes técnicos comprovem sua viabilidade.

CONFIRA: carro elétrico mais barato do Brasil

Mais etanol pode aumentar o consumo?

O motorista também pode perceber uma pequena redução na autonomia. Isso acontece porque o etanol possui poder energético menor do que a gasolina. Em outras palavras, é necessário queimar uma quantidade maior do combustível para produzir a mesma energia.

Com o aumento da mistura de 30% para 32%, carros flex e modelos movidos somente a gasolina podem passar a consumir um pouco mais. A diferença, porém, tende a ser pequena e pode não ser percebida facilmente no uso cotidiano.

Estimativas citadas por especialistas apontam que a redução de eficiência provocada pelo avanço da mistura pode ficar em torno de 1% a 2%, dependendo do motor, do modo de condução e das condições do veículo.

Na prática, um carro que percorre 10 quilômetros por litro pode registrar uma diminuição discreta na autonomia. Mesmo pequena, a diferença acumulada pode aumentar os gastos de quem roda muitos quilômetros por mês.

Gasolina com mais etanol pode causar corrosão?

O etanol absorve umidade com mais facilidade do que a gasolina. A presença de água no sistema de alimentação pode favorecer a corrosão de componentes metálicos, especialmente em veículos que ficam parados por longos períodos.

Entre as peças que entram em contato direto com o combustível e podem ser afetadas estão:

  • tanque;
  • bomba de combustível;
  • boia;
  • mangueiras;
  • tubulações;
  • filtro de combustível;
  • bicos injetores;
  • vedações;
  • pistões e câmara de combustão.

As borrachas e mangueiras dos carros antigos também podem não ter sido fabricadas para suportar concentrações elevadas de etanol. Com o tempo, esses materiais podem ressecar, perder elasticidade e apresentar vazamentos.

A bomba de combustível e os bicos injetores também podem sofrer oxidação ou travamento. Em situações mais graves, as falhas podem comprometer o funcionamento do motor e encarecer a manutenção.

O risco não é igual para toda a frota. Alguns componentes antigos conseguem trabalhar com a mistura sem apresentar problemas, enquanto outros podem sofrer desgaste prematuro. Por isso, testes de durabilidade são necessários antes da adoção definitiva do E32.

Quais sinais indicam que o carro sentiu a mudança?

Caso a gasolina E32 seja aprovada, os motoristas devem observar mudanças no comportamento do veículo após o abastecimento.

Os principais sinais são:

  • demora para o motor pegar pela manhã;
  • falhas ou engasgos durante a aceleração;
  • marcha lenta irregular;
  • perda de potência;
  • aumento repentino no consumo;
  • cheiro de combustível;
  • vazamentos;
  • luz da injeção eletrônica acesa no painel.

O etanol também pode soltar resíduos acumulados no fundo do tanque, aumentando o risco de entupimento do filtro de combustível.

Em motores sem calibração apropriada, o funcionamento inadequado ainda pode antecipar a troca das velas de ignição e aumentar a temperatura de combustão.

Caso algum desses sintomas apareça de forma persistente, a recomendação é procurar uma oficina de confiança. Veículos antigos também podem passar por adaptações, como a substituição de mangueiras, vedações e outras peças por componentes compatíveis com concentrações maiores de etanol.

A gasolina premium também terá 32% de etanol?

A possível mudança atinge a gasolina comum e a aditivada. Atualmente, a gasolina premium segue uma regra diferente e permanece com 25% de etanol anidro.

Por esse motivo, a premium pode ser uma alternativa para alguns veículos importados ou antigos, desde que o combustível seja recomendado pela montadora.

O uso da gasolina premium, no entanto, não deve ser encarado como solução automática. O proprietário precisa consultar o manual do veículo ou procurar orientação técnica, já que a necessidade varia conforme o modelo e a especificação do motor.

Você pode gostar também

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Vamos supor que você esteja de acordo com isso, mas você pode optar por não participar, se desejar. Aceito Mais detalhes