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São Paulo - A redução do fator de ponderação de risco (FPR) - que mede o volume de recursos que a instituição deve manter em caixa para cada empréstimo feito - dos sistemas de cooperativas de crédito deve aumentar o nível de alavancagem dos bancos cooperativos.

Essas instituições financeiras, entretanto, estão capitalizadas (ou seja, possuem recursos suficientes em caixa) e têm estrutura para fazer frente ao possível aumento do volume de empréstimos, apontam analistas da Fitch Ratings ao DCI.

"O índice de capitalização dos bancos cooperativos aumentou bastante e isso abre espaço para eles se alavancarem mais no futuro, se quiserem. Podem aumentar os ativos sobre operações de crédito (empréstimos)", afirmou Claudio Gallina, diretor sênior de instituições financeiras da Fitch.

Dados do Banco Central apontam que o Índice de Basileia dos dois maiores bancos cooperativos, o Bancoob e o Bansicredi, passou de 13,6% para 17,3% e de 15,7% para 20,6%, respectivamente, após as mudanças nas regras do FPR, feita pela autoridade monetária no final do ano passado.

O índice mostra que, em dezembro (últimos dados disponibilizados pelo BC), o Bancoob, por exemplo, tinha R$ 17,30 em caixa para cada R$ 100 emprestados.

"Os números apontam que os bancos das cooperativas estão muito mais capitalizados que os bancos públicos e privados", afirmou Pedro Gomes, diretor de instituições financeiras da Fitch, com base nos índices Núcleo de Capital Fitch (semelhante ao Índice d Basileia) dos bancos públicos e privadas, que estava, em junho de 2014, em 9,1% e 10,4%, respectivamente.

Apesar de terem aumentado o índice de capitalização, considerando o total de ativos sobre o patrimônio de referência, no entanto, o Bancoob estava alavancado em 27,8 vezes e o Bansicredi em 24,3 vezes até dezembro de 2014 - um número elevado, segundo a Fitch.

Menor alavancagem

Os bancos cooperativos são parte de sistemas cooperativos e atuam, principalmente, realizando empréstimos para as cooperativas de crédito e cooperados do sistema do qual fazem parte - o Sicoob, no caso do Bancoob, e o Sicredi, no caso do Bansicredi.

Na avaliação da Fitch, justamente pelos bancos das cooperativas serem parte de um arcabouço maior, uma medida mais eficaz de capitalização seria calcular os índices com base no sistema cooperativo.

"Isso refletiria índices de alavancagem muito mais baixos (alavancagem média de 5,4 vezes em dezembro de 2014, nos dois maiores sistemas de crédito cooperativo brasileiros, o Sicoob e o Sicredi)", aponta relatório da agência de classificação de riscos, ressaltando acreditar que os indicadores individuais também deveriam ser mantidos.

Para Gomes, olhando todo o sistema, a medição seria mais justa. "Os bancos operam alavancados, pois mantêm o excesso de capital nas cooperativas, que pagam menos impostos", observou - as cooperativas de crédito possuem isenção de tributos, como imposto de renda e contribuição social, sobre as receitas provenientes da operação.

Até dezembro de 2014, os sistemas cooperativos possuíam (excluindo os bancos cooperativos) R$ 150,9 bilhões em ativos, uma alta de 14,7% sobre março do mesmo ano.

Mudanças do BC

No final de 2014, o Banco Central promoveu uma série de alterações na regulamentação das cooperativas de crédito. Entre as mudanças, a autoridade monetária autorizou as entidades e emitirem letras financeiras (LF) para captar recursos (da mesma forma que os bancos) e autorizou a criação de uma auditoria específica para as cooperativas, para verificar as informações financeiras e contábeis.

Uma terceira modificação foi a mudança nos requerimentos mínimos de capital, que reduziu o fator de ponderação de risco de 50% para 20% para empréstimos dentro de um mesmo sistema cooperativo (caso dos bancos cooperativos) e de 85% para 75% para as operações de crédito contratadas por cooperativas singulares.

Pequenas empresas

As cooperativas de crédito são uma via alternativa aos bancos tradicionais para as micro e pequenas empresas terem acesso ao crédito. Nessa linha, a Sicredi e o Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) firmaram um convênio na última sexta-feira, permitindo não só o acesso dos pequenos negócios ao mercado financeiro, como a capacitação técnica dos associados.

"Além de fortalecer as parcerias locais em andamento, a ampliação do acordo vai criar novas oportunidades de ações conjuntas, o intercâmbio de conhecimento, além de fomentar o desenvolvimento e a capacidade competitiva dos pequenos negócios", afirmou Edson Georges Nassar, CEO do Bansicredi.

Na parceria, o Sebrae vai estimular o acesso à capacitação, consultoria, elaboração de projetos e assessoria técnica destinada às cooperativas filiadas ao Sicredi e que atuam no segmento de pequenos negócios. Para a diretora técnica do Sebrae, Heloisa Menezes, o convênio com o Sicredi é estratégico, porque busca melhorias na gestão das cooperativas, o desenvolvimento de novos produtos e serviços para pequenos negócios.

O Sicredi tem aproximadamente 300 mil associados pessoas jurídicas, que correspondem a 10% da base. Destes, 96% são micro e pequenas empresas, que atuam, principalmente, no comércio (46%) e no setor de serviços (40%).