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SÃO PAULO - Apesar das sucessivas medidas do Banco Central para afrouxar as exigências de compulsório e garantir liquidez aos pequenos e médios bancos, e assim combater um dos principais efeitos da crise financeira mundial - o enxugamento do dinheiro em circulação -, algumas instituições já buscam outros meios de captar recursos com taxas melhores e prazos mais longos que os dos títulos de Certificado de Depósito Bancário (CDB), como operações com Fundos de Investimentos em Direitos Creditórios (FIDC) e cessão de crédito. Outros bancos, porém, não acreditam na eficácia do 'plano B' e preferem apenas repassar o aumento no custo do capital para as taxas aos clientes, que também estão com escassez de linhas às quais recorrer.

O superintendente de Relações com Investidores do banco Cruzeiro do Sul, Fausto Guimarães, diz que não há como evitar o aumento nos custos e o conseqüente repasse às taxas, porém, na medida do possível, a instituição está trocando CDB por FIDC.

O banco encerrou o segundo trimestre do ano com 47% de captação em depósito a prazo, 19% em emissões no exterior, 17% com FIDC e 17% com cessão de crédito. "Nossa intenção agora é diminuir a proporção de nossas captações por depósito a prazo e dar mais atenção para FIDC e cessão de crédito", diz o executivo. Guimarães ainda ressalta que, dependendo da evolução da crise, essa transição pode ser mais ou menos acentuada.

No entanto, um alto executivo de um banco médio que preferiu não se identificar diz que quando há liquidez no mercado, fazem-se captações de todas as formas possíveis. Ele ressalta, porém, que neste momento não está preocupado em buscar meios alternativos. Além disso, mesmo com um custo de funding elevado, se puder aumentar sua carteira, a aumentará. "Existe uma capacidade de elevar as taxas muito maior do que o aumento do custo. Meus clientes também estão desabastecidos de linhas de crédito", analisa o banqueiro.

Compulsório

O BC anunciou na sexta-feira a revisão de medidas de flexibilização do depósito compulsório bancário que podem injetar R$ 23,5 bilhões no sistema financeiro nacional, que se somariam à decisão de manter em circulação outros R$ 13 bilhões, também em compulsórios. As medidas privilegiam principalmente as pequenas e médias instituições, com opções de funding mais escassas que os grandes bancos.

Com a nova norma, as instituições financeiras que comprarem crédito de bancos com um patrimônio de referência máximo de R$ 2,5 bilhões, poderão descontar até 40% do depósito compulsório obrigatório sobre as operações de depósitos a prazo. Segundo o ministro da Fazenda, Guido Mantega, com os leilões de câmbio e as novas medidas de compulsório, o mercado financeiro terá mais liquidez disponível. O ministro descartou a possibilidade de o sistema estar passando por um problema de solvência. "Não se trata de um problema de solvência, mas de liquidez. Mas é bom lembrar que problemas de liquidez podem se tornar problemas de solvência."

Para o diretor superintendente do banco Indusval Multistock, Luiz Masagão, essa medida não seria tão eficaz para o sistema caso o BC não mudasse o parágrafo da normativa que não permitia a co-obrigação. "Seria muito difícil chegar a esse teto esperado, uma vez que não poderia garantir o contrato que vendi." O BC mudou o parágrafo na sexta à noite para que fosse permitida a divisão de responsabilidades entre comprador e cedente, o que estava proibido na primeira versão.

Mantega vê ainda o comportamento dos mercados nas duas últimas semanas como um período anormal, e enfatizou que o governo já está ajudando os setores que poderiam apresentar problemas. "Abrimos as torneiras dos compulsórios." Para ele, o Brasil não está imune à crise, mas a solidez atual do sistema financeiro garante uma boa posição. "As reservas internacionais nos dão segurança. Seria diferente enfrentar essa crise com apenas US$ 20 bilhões ou US$ 30 bilhões", comentou. "Passamos um ano de crise e um mês mais forte [setembro] sem perdermos US$ 1,00 das reservas, que estão intactas. Em 1998 [crise da Rússia], elas evaporaram-se , nada sobrou", disse.

Apesar das sucessivas medidas do Banco Central (BC) para afrouxar as exigências de compulsório e garantir liquidez aos pequenos e médios bancos, algumas instituições buscam outros meios de captar recursos com melhores condições. O superintendente de Relações com Investidores do banco Cruzeiro do Sul, Fausto Guimarães, diz que não há como evitar o aumento nos custos e o conseqüente repasse às taxas, mas, na medida do possível, a instituição está trocando a busca de recursos via Certificado de Depósito Bancário (CDB) para operações com Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC) e cessão de crédito.