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Os juros do cartão de crédito parcelado cobrado das empresas subiram 21,6 pontos percentuais (p.p.) desde as mudanças no rotativo. A alta vem mesmo após a inadimplência da modalidade atingir menor nível em mais de três anos.

Em dezembro do ano passado, segundo os dados do Banco Central (BC) divulgados ontem, os juros do parcelado do cartão ficaram em 141,3% ao ano (a.a.).

O número é mais de 20 p.p.superior aos 119,6% a.a. vistos em abril do mesmo ano, quando a obrigatoriedade de um parcelamento da fatura após um mês no rotativo passou a vigorar no sistema.

Em relação a dezembro de 2016 – quando as mudanças no rotativo ainda não haviam sido aplicadas – o aumento foi de 105,1 p.p. (36,2% a.a.).

“Não faz sentido o parcelado subir. Com as mudanças que trouxeram quedas fortes no rotativo do cartão, o risco já é parcialmente precificado pelo banco. E inadimplência, como vimos, não justifica mais”, comenta o professor de economia do Mackenzie Alphaville João Francisco Aguiar.

Os calotes das empresas, por exemplo, que justificariam uma maior percepção de risco caso estivessem subindo, tiveram a postura oposta e, em dezembro, registraram o menor patamar em mais de três anos (10,1%) – chegou a atingir 17,2% em dezembro de 2016 e 16,3% no mesmo mês de 2015.

De acordo com o professor de finanças do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais do Rio de Janeiro (Ibmec/RJ) Alexandre Espírito Santo, existem dois problemas principais que justificam os altos juros: a baixa concorrência e a política tributária do sistema.

“Além de os bancos tentarem repassar os altos impostos que pagam, o setor também é muito concentrado. Isso faz com que as taxas não se movam de maneira intensa e dificultam uma redução baseada na mesma intensidade que a queda da Selic [taxa básica de juros]”, explica Alexandre.

Os especialistas reforçam que os juros ainda podem sentir os reflexos tanto com o recuo do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), como com a implementação da Taxa de Longo Prazo (TLP).

“O recuo do [participação no mercado] BNDES é relevante. Houve um certo abandono por parte do governo e os financiamentos levam um tempo para se consolidar de novo”, diz o ex-presidente do Conselho Federal de Economia (Cofecon) José Luiz Pagnussat.

“A expectativa, porém, é que as taxas do banco de fomento se equalizem com o mercado. Isso vai oxigenar o crédito no País e, com certeza, trazer taxas menores”, completa Alexandre, do Ibmec/RJ.

Para pessoas físicas, a taxa de juros do parcelado ficou em 169,2% a.a. no mês passado, 7 p.p. maior do que o observado em abril e 15,4 p.p. superior do visto em dezembro de 2016.

A inadimplência do consumidor na modalidade, porém, ficou em 1,7% na mesma comparação, queda de 0,3 p.p. em relação a abril, mas alta de 0,6 p.p. ante dezembro de 2016.

Atuação pública

Da outra ponta, a necessidade de uma atuação mais forte tanto do próprio governo como da parte do Banco Central (BC) foi reforçada por todos os especialistas entrevistados.

“O dilema do Banco Central na condição de política monetária é até onde pode estimular a oferta de crédito sem provocar inflação. É preciso uma reforma monetária que viabilize taxas de juros normais e que sustente o setor financeiro, por exemplo. Caso contrário, os bancos sempre vão priorizar o lucro”, analisa Pagnussat.

Nesse sentido, seguindo a premissa da agenda BC+ de incentivar o crédito mais barato no mercado, a autoridade monetária já estuda, junto à Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), uma reformulação do cheque especial.

A modalidade registrou, no mês passado, juros de 330,9% a.a. para pessoas jurídicas e de 323% a.a. para pessoas físicas.

“É importante que para que o BC mantenha uma política monetária mais frouxa, o lado fiscal precisa ser ajustado”, pontua Alexandre. “Se o governo fizer a lição de casa, mesmo que os resultados concretos não venham em um estalar de dedos, já poderemos ver mudanças significativas nos juros e no crédito até 2019”, conclui.