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Dos 120,7 milhões de brasileiros que acessaram a internet regularmente em 2017, quase metade (49%) só utilizou o serviço a partir de dispositivos móveis. Reunindo cerca de 59,1 milhões de pessoas, o contingente que tem o aparelho como meio exclusivo de uso da rede se tornou o maior do País, evidenciando uma série de desigualdades sociais e regionais no acesso.

Divulgados ontem (24) na 13ª edição da pesquisa TIC Domicílios, os dados revelaram “diferenças muito grandes entre as classes sociais”, nas palavras da pesquisadora e diretora do InternetLab, Mariana Valente.

“Enquanto 88% da classe A usa a internet tanto em computadores quanto em celulares, nas classes D e E esse grupo soma apenas 15%. Outros 80% [nas classes D e E] usam a internet exclusivamente por celulares”, observou a pesquisadora. Na classe C, o celular é canal único de acesso para 53%.

Discrepância similar é encontrada na análise por regiões: no Nordeste, o aparelho é a porta de acesso única para 58% da população. O fenômeno se manifesta de maneira ainda mais forte na região Norte (62%) ou em áreas rurais, onde 72% dos usuários acessam a internet apenas via celulares.

Por outro lado, o percentual total de usuários da rede em áreas rurais avançou para 44% ano passado, ante 15% em 2011; apesar de incluir também o acesso via computadores, tal salto foi creditado ao incremento das conexões móveis.

“Ela é a que chega aos domicílios”, afirmou o coordenador da TIC Domicílios, Winston Oyadamori, destacando que, em termos gerais, um em cada cinco lares brasileiros – ou 19%, perfazendo cerca de 13,4 milhões de domicílios – têm acesso à internet sem possuir computador. “Em 2014 eles eram 7%. Há um novo arranjo”.

Para a pesquisadora da área de direito e tecnologia do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS Rio), Ana Lara Mangeth, o número crescente de pessoas utilizando a rede via celulares “é positivo em um primeiro momento porque significa mais acesso à tecnologia, o que é benéfico independente do meio.”

Por outro lado, “pode-se presumir que o uso exclusivo de celulares para o acesso seja mais [calcado em] redes sociais e aplicativos de comunicação” como o WhatsApp, sinalizou a pesquisadora.

As implicações do fenômeno foram destacadas pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), responsável pela TIC Domicílios. Coordenador da entidade (que é vinculada ao Comitê Gestor da Internet no Brasil, ou CGI.br), Alexandre Barbosa admite que o fenômeno pode “criar dificuldades na criação de habilidades digitais” do usuário. “Há toda uma discussão sobre os usos possíveis em celulares e computadores”, corroborou Mariana Vicente, do InternetLab.

“Há coisas que são difíceis no celular, como escrever um texto complexo”, prosseguiu a diretora do InternetLab, lembrando ainda que muitos sites – inclusive governamentais – não são responsivos ao ambiente móvel. “A falta de acesso à internet ‘completa’ pode aprofundar desigualdades que já existem”.

“Ainda assim, é melhor o acesso móvel do que nenhum acesso”, pontuou Ana Lara, do ITS Rio. Segundo a TIC Domicílios, um terço dos brasileiros com dez anos ou mais – ou cerca de 59,4 milhões de pessoas – não tem acesso regular à rede.

Preços

Se 67% dos brasileiros foram considerados usuários de internet em 2017 (contra 61% em 2016), entre os domicílios o quadro é um pouco distinto: dos cerca de 69 milhões de lares do País, 42,1 milhões (ou 61%) têm acesso à internet, rompendo dois anos de estabilidade do indicador. Por outro lado, 39% dos lares – ou cerca de 26,9 milhões de domicílios – não contariam com o serviço. Em áreas rurais, os lares sem o serviço ainda são 66%.

“[Para os que não contam com internet em casa], o preço é barreira relevante”, afirmou, Alexandre Barbosa, do Cetic.br: do contingente de domicílios nesta situação, 59% elegeram o custo alto de pacotes como principal motivo.

“Pode ser consequência da oferta de pacotes [com velocidades] melhores, mas está aumentando a quantidade de pessoas que pagam mais pela internet” observou Mariana Vicente. “Em 2017, 33% pagavam mais que R$ 80 pelo acesso, o que pode causar um impacto grande no orçamento familiar”, citou ela. Um ano antes, 28% dos domicílios gastavam valores acima deste preço.