Tortura psicológica do BBB pra vida real: entenda porque é tão grave

Milhares de brasileiros se comoveram com Lucas Penteado, participante que sofreu tortura psicológica no reality show. Agressão é considerada crime e pode causar prejuízos permanentes para a saúde mental da vítima.

Como de praxe, o Big Brother Brasil, reality show exibido pela rede Globo, tem aflorado diversos assuntos e temas revelantes na sociedade. Se no ano passado o enredo da edição foi o debate sobre machismo, certamente o desta edição convida os telespectadores a fazerem uma reflexão interna sobre a importância da saúde mental. Estamos falando sobre tortura psicológica.

Para a doutora em psicanálise, Andrea Ladislau, o tema não era tão “explícito” antes do programa, mas acontece no “dia a dia das pessoas de forma sútil ou não”. O comportamental violento pode causar graves danos à sanidade e o bem-estar psíquico de alguém  consta a própria constituição brasileira, com a lei nº 9.455/97.

O que é uma tortura psicológica?

Humilhação, estresse, angústia, isolamento social e vulnerabilidade. São essas as principais características de alguém que sofre de tortura psicológica. Normalmente as vítimas se sentem culpadas e perdem a autonomia das suas próprias ações, pensamentos, e também sentem dificuldades de fazer suas escolhas.

As cicatrizes psicológicas podem ser permanentes, e apesar de seguir o mesmo viés do bullying – prática de atos de violência física ou psicológica, intencionais e repetidos –, a tortura psicológica é ainda mais perversa, feita normalmente por “manipuladores emocionais”, segundo explica Ladislau.

“Normalmente são pessoas que enxergam os outros como fantoches e não respeitam a individualidade e subjetividade do outro. Utilizam de diferentes artimanhas para conduzir ou induzir as pessoas que estão ao seu redor em benefício próprio.”

BBB x vida real

Karol Conká e Lucas Penteado no BBB21
Karol Conká e Lucas Penteado no BBB21 (Foto: Reprodução/ TV Globo)

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Não precisa ser um grande fã ou até mesmo acompanhar diariamente o reality, para saber o que aconteceu com o ator Lucas Penteado, um dos convidados para participar do BBB 21. Após gerar intriga nos primeiros dias do programa – e ter se desculpado por isso – Lucas se tornou alvo de ofensas, piadas e xingamentos em rede nacional. O linchamento não parou por aí, ele também chegou a ser expulso da mesa na hora da refeição.

Apesar de não ter sido a única a provocar Lucas, a cantora Karol Conka, outra convidada pela produção do programa, se tornou a principal acusada por praticar tortura psicológica com o ator. Internautas anônimos e celebridades se manifestaram nas redes sociais, condenando o comportamento da artista. Conka chegou a admitir que teria “exagerado” na sua condução com o colega, mas se mostrou pouco ou quase nada abalada com a saída de Lucas, que deixou o programa no último domingo, 7 de fevereiro.

Depois de beijar Gil durante a festa de sábado, Lucas teve sua bissexualidade questionada por alguns participantes,e isso acabou sendo a gota d’água para o ator, que chorou e praticamente implorou para desistir do reality, já que “não aguentava mais” a situação que vivia dentro da casa.

Da televisão para a realidade. Letícia Leonardo, estudante de fisioterapia, chegou a desistir de um emprego após sofrer tortura psicológica das chefes. Tudo aconteceu em 2016, quando a jovem ingressou no mercado profissional pela primeira vez. “Era horrível elas [chefes] humilhavam os funcionários. Gritavam, faziam questão de corrigir erros de português na frente de todo mundo. Uma exposição”, lembra.

Assim como Lucas, Letícia não aguentou permanecer na vaga. “Elas que me fizeram desistir do emprego. Com toda essa pressão, eu começava a errar muita coisa. Fizeram uma reunião falando que eu estava acabando com a empresa, e que era melhor eu sair, mas não iam me mandar embora para não pagar a multa.”

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Mesmo após quatro anos da experiência traumática, a jovem de 22 anos sofre com as marcas deixadas pela tortura psicológica. “Por conta dos gritos, a forma agressiva de falar e expor os outros, eu faço tratamento psiquiatro até hoje. Tenho muito medo de qualquer chefe, eu peço desculpas por qualquer coisa. Tenho medo de grito e quando começam a fazer muitas perguntas”, explica.

Imagem mostra personagem vítima de tortura psicologica, Leticia Leonardo
Letícia Leonardo, 22 anos, estudante de fisioterapia. (Foto: Arquivo pessoal/Reprodução)

Como identificar um torturador emocional?

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Na opinião da psicanalista Andrea Ladislau, não é difícil identificar um torturador emocional, também chamado de “vampiro emocional”. “Pessoas muito egocêntricas que precisam ter o ego elevado, e diminuir o outro alimenta seu ego. São bem manipuladores e tentam perceber qual é a melhor forma de mexer com os pontos fracos da outra pessoa.”

A especialista também alerta: nem sempre um torturador emocional sabe que está fazendo isso. Segundo ela não existe uma regra que possa definir todas as pessoas que praticam tortura psicológica, no entanto, a maioria consegue perceber. “Os que fazem isso de forma espontânea é porque normalmente não trabalham esse lado em uma terapia, e acabam sempre manipulando cada vez mais o outro. Não é uma coisa que seja muito consciente”.

Quais são as punições para tortura psicológica?

Segundo consta a lei nº 9.455, de 7 de abril de 1997, o art. 1º Constitui crime de tortura:

  1. constranger alguém com emprego de violência ou grave ameaça, causando-lhe sofrimento físico ou mental:
  2. submeter alguém, sob sua guarda, poder ou autoridade, com emprego de violência ou grave ameaça, a intenso sofrimento físico ou mental, como forma de aplicar castigo pessoal ou medida de caráter preventivo;
  3. submeter alguém, sob sua guarda, poder ou autoridade, com emprego de violência ou grave ameaça, a intenso sofrimento físico ou mental, como forma de aplicar castigo pessoal ou medida de caráter preventivo.

A pena pode ser reclusão, de dois a oito anos.

Fonte: Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios

Sensação de gatilho

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Ao trazer o tema a tona, o Big Brother Brasil também foi um “gatilho” para muitos telespectadores. A psicanalista Andrea Ladislau explica que é a sensação de desconforto que o reality provocou nas pessoas é comum, mas deixa um alerta: “Tive pacientes meus que relataram que choraram ao ver o programa. Isso pode levar às pessoas reviverem uma situação desagradável que elas já viveram ou presenciaram.”

O Brasil se sensibilizou com a situação de Lucas Penteado, mas segundo a especialista, não se trata de um sentimento de “empatia”, e sim do instinto voyeur que o reality show costuma provocar nos telespectadores. “O que é isso? É quando você tem prazer em observar as ações do outro. As pessoas são colocadas ali sob uma pressão, tudo instiga o lado emocional, é isso que dá audiência.”

Ladislau também aponta que é natural o telespectador ter se colocado no lugar de Lucas. “Quando você vê um caso como esse de tortura psicológica a gente se sente oprimido, por isso causa tanto mal-estar e comoção.”

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