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O governo do Estado de São Paulo corre contra o tempo para evitar maiores prejuízos causados pelo fechamento da fábrica de caminhões da Ford, anunciado pela empresa no dia 19 de fevereiro. Ontem, o governador, João Doria, se reuniu com o prefeito de São Bernardo do Campo, Orlando Morando, e representantes da montadora para negociar.

Após a rejeição da multinacional em manter a unidade fabril, foi decidido que será aberta a venda do parque industrial da Ford já na próxima segunda-feira (25). Além disso, foi acertado que a companhia deve manter suas unidades em Taubaté, Tatuí e Barueri sem cortes ou mudanças. O intuito do Estado é que a empresa compradora do local possa absorver os funcionários.

São Bernardo, que recebeu o título de “capital do automóvel”, sentiu o baque com o anúncio do fechamento da fábrica. A cidade, localizada na região do ABC Paulista, berço não só da indústria automotiva mas também de todo um parque industrial de São Paulo, tenta diminuir os impactos que as demissões em massa provocariam na arrecadação do município.

Sem a Ford, a cidade que projetou para 2019 arrecadar R$ 5,195 bilhões em tributos vai perder cerca de R$ 14 milhões em Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), o equivalente a quase 0,26% do total. Além disso, a prefeitura espera redução de R$ 4 milhões no Imposto Sobre Serviços (ISS), quase 0,08% da arrecadação.

As demissões diretas devem atingir 2,8 mil pessoas. Contando com trabalhadores terceirizados, o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC projeta que 4 mil funcionários poderão ser afetados.

Renovação

O professor de ciências econômicas da Universidade Metodista Sandro Maskio explica que a presença de montadoras na cidade ajudou o município a se desenvolver. Porém, ele diz que, tanto São Bernardo quanto o ABC não conseguiram manter a atratividade. “A região se acomodou e virou reprodutora de itens industriais.” O setor automotivo começou a se estabelecer em São Bernardo a partir da década de 1960, atraindo empresas como Volkswagen, Ford, Scania e Mercedes. Além da acomodação, o professor considera que o ABC foi deixado de lado nos investimentos e políticas públicas do governo estadual.

“Desde a década de 1980 fica claro que o Estado queria levar indústrias para o interior, com melhoria de estradas e expansão de universidades”, diz.

A professora de economia da Universidade Federal do ABC (UFABC) Luciana Pereira considera que, com avanço da tecnologia, a diminuição de empregos no setor automotivo é inevitável.

“O Estado pode tentar incentivar as empresas, mas não vai ter eficiência por muito tempo. O ‘plano B’ terá de ser a primeira opção agora, que é ampliar o leque de geração de empregos fora da indústria”, diz a especialista.