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As primeiras aceleradoras de negócios do Brasil surgiram há quase dez anos, quando o cenário de empreendedorismo ainda era pouco desenvolvido no País. A carioca 21212 e a mineira Aceleradora buscavam projetos até mesmo em estágio inicial.

Hoje, diferentemente das paulistas Startup Farm e Ace, elas não fazem mais novos programas de aceleração e passaram a focar nas empresas já investidas.

É senso comum entre os fundadores das primeiras aceleradoras que, naquele momento, os empreendedores brasileiros em geral ainda precisavam de capacitação para conseguir os investimentos iniciais. Pensando nisso, o mineiro Yuri Gitahy fundou a Aceleradora. “Era uma incubação mais acelerada. Eu queria trabalhar aqueles empreendedores para investir depois”, diz.

A primeira aparição da companhia foi na Campus Party, no longínquo ano de 2010, em São Paulo. Com dez mentores, a Aceleradora foi ao evento de tecnologia em busca de potenciais empreendedores. “A gente tinha que estimular o ecossistema”, explica Gitahy. A equipe passou em outros Estados, como Paraná e Rio de Janeiro, fazendo essa busca.

Nos primeiros dois anos não eram realizados investimentos nas empresas nascentes. Muitos projetos chegavam organicamente por meio do site da aceleradora – mais de mil por ano, segundo Gitahy. Mas a maioria, assim como nas chamadas para aceleração, era baseada em ideias incipientes, muitas vezes sem um protótipo ou produto pronto.

Equipe da Aceleradora (Yuri Gitahy e Eric Santos) explica como funciona o modelo Canvas

Nesse período, mais de 200 startups foram apoiadas pela Aceleradora, mas sem receber investimento por serem negócios ainda bastante iniciantes.

Observando essa dificuldade, a partir de 2013 Gitahy optou por selecionar por conta própria – em vez de abrir novas chamadas – algumas poucas startups já em estágio mais desenvolvido, para investir somente nelas.

Dessa maneira ele não precisaria fazer algo que critica em relação às aceleradoras em geral, que é “forçar empresas de momentos diferentes a seguir um processo fixo”.

Saídas demoradas

Para Gitahy, a aceleração tradicional é pouco rentável, porque pressupõe chamadas para investir em dezenas de startups a cada semestre ou ano. A duração dos ciclos pode variar, mas a maturação dos negócios demora, cada um em seu ritmo. Nesse modelo, a principal fonte de receita é com as saídas, ou seja, quando o investidor vende sua participação. Isso significa que os fundadores das aceleradoras teriam de estar preparados financeiramente para operar sem receita por alguns anos.

Por isso a Aceleradora mudou a forma de atuar a partir de 2013. Depois de investir em cerca de 20 companhias durante vários ciclos, ela passou a ir atrás de startups com potencial, em vez de abrir mais inscrições.

Atualmente o portfólio conta com sete companhias. A Sympla, plataforma de eventos, a Trackage, de monitoramento inteligente, e a Crowndtask, que realiza a terceirização de processos de negócio de grandes empresas, são as três principais.

Corporações

Assim como a Startup Farm e a Ace cresceram por meio de acelerações corporativas, ou seja, ajudando grandes empresas a buscar startups ou a criar dentro de casa outras áreas de negócio, a Aceleradora também optou por esse caminho.

De acordo com Gitahy, é um modelo interessante porque oferece uma nova fonte de renda para esse tipo de empresa. Além disso, as corporações estão mais atentas a essa alternativa para inovar e desenvolver novos negócios.

No caso da Aceleradora, foram oito projetos realizados desde 2015. O objetivo, além de auxiliar gerentes e diretores das corporações a entender como são as práticas de uma startup, também é impulsionar o intraempreendedorismo, ou seja, novas iniciativas dentro da própria companhia. Segundo Gitahy, é possível criar startups dentro de uma corporação.

Quase dez anos depois de fundar a Aceleradora, ele ainda faz investimentos pontuais. Além disso, aposta nas capacitações e acelerações corporativas.

Conexão Rio-Nova York

No início de 2011 surgiu a carioca 21212. O nome se refere aos códigos de telefone do Rio de Janeiro (21) e de Nova York (212), já que a aceleradora tinha investidores brasileiros e americanos. Na capital financeira dos Estados Unidos havia também um escritório para ajudar as startups na internacionalização.

O objetivo dos seis fundadores era ousado: em poucos anos, acelerar 50 startups a cada programa. Porém, assim como Yuri Gitahy, eles perceberam que o mercado brasileiro carecia de empresas novatas em estágio um pouco mais avançado e decidiram recuar.

A equipe que começou com o projeto era composta por perfis variados, desde empreendedores, como três fundadores da empresa de tecnologia Movile, até investidores americanos.

Equipe de fundadores da aceleradora carioca 21212

Logo após a primeira turma de aceleração, a equipe decidiu mudar a estratégia. “A gente viu que os empreendedores brasileiros eram um pouco mais crus em termos de bagagem”, diz Frederico Lacerda, um dos sócios. Segundo ele, muitas pessoas estavam se aventurando no empreendedorismo pela primeira vez e a experiência que faltava era importante.

Isso foi em 2011, quando a aceleradora passou a oferecer cursos para ensinar aos empreendedores o funcionamento de uma startup e os tipos de problemas que enfrentariam. O objetivo era fomentar o ecossistema, ainda muito incipiente, sem praticamente nenhum investidor voltado a startups.

Para orientar as equipes aceleradas, a 21212 optou por ter uma equipe própria que auxiliava as startups. “Eram mais dez pessoas, que ajudavam a desenvolver o produto, atuavam na parte financeira, jurídica, entre outras coisas”, diz Lacerda.

Para o também fundador da aceleradora, Rafael Duton, esse investimento era mais significativo do que os cerca de R$ 50 mil em dinheiro que as startups recebiam, em troca de uma participação de 5% a 15%. A aceleração durava cerca de seis meses e era presencial, no Rio de Janeiro.

Dilemas

Com a retomada do mercado norte-americano pós-crise de 2008, os sócios brasileiros perceberam que o apetite dos investidores estrangeiros diminuiu, já que consideravam o mercado brasileiro menos interessante. Além disso, a demora das saídas tornava mais difícil a manutenção do caixa durante esse período.

Tanto Duton como Lacerda citaram que, no Brasil, as boas saídas, ou desinvestimentos, ocorrem geralmente depois de dez anos. Sem o capital estrangeiro, eles tiveram o dilema de manter apenas a atuação tradicional ou abrir para corporate ventures.

A equipe da 21212 realizava atividades frequentes com os empreendedores em sua sede

Já que optaram por continuar com o mesmo modelo de negócios, os fundadores precisaram fazer mudanças. A mais drástica foi no meio de 2015, quando a 21212 mudou o posicionamento e anunciou que não abriria novas inscrições para seu programa de aceleração.  

Isso não significa que a aceleradora fechou. No início daquele ano, a ZeroPaper, uma das startups do portfólio, focada em gestão financeira para pequenas e médias empresas, foi adquirida pela norte-americana Intuit. Apesar de não revelar valores por motivos contratuais, eles garantem que a saída rendeu um expressivo retorno sobre o investimento.

Foco no portfólio

Embora a saída da ZeroPaper tenha sido um sucesso, a equipe sabia que também contou com a sorte. “Foi no terceiro ano, algo bastante raro”, diz Lacerda. Além disso, com mais de 40 empresas novatas no portfólio, os fundadores queriam dar mais atenção para os empreendedores, já que observaram que esse acompanhamento mais próximo fora essencial para o sucesso da ZeroPaper.

Atualmente os sócios acompanham de perto as 14 companhias que mantêm em portfólio. As mais conhecidas são a WeDoLogos, a Memed e a MaxMilhas.

Sobre o futuro da aceleradora, os fundadores divergem. Enquanto Lacerda não pensa em voltar a fazer investimentos, Duton é mais otimista e já prevê novas acelerações. “Com novas saídas é possível, penso em algo como [selecionar] 50 empresas ao longo de cinco anos.”

Transformação

Para o diretor-executivo da Associação Brasileira de Startups (ABStartups), Rafael Ribeiro, o fato de algumas aceleradoras terem encerrado suas atividades ou mudado sua operação não é algo negativo. "É natural, faz parte do processo de desenvolvimento do ecossistema."

Ribeiro cita alguns exemplos de evolução das aceleradoras ao longo dos anos. "Hoje elas pegam menor participação, antes era comum as startups cederem 20% ou 30%. O risco também é menor, porque elas [aceleradoras] pegam negócios mais maduros", analisa.

Do lado do empreendedor, há mais opções na hora de escolher onde ser acelerado. O executivo cita como exemplos a Artemisia, para aqueles que têm soluções com impacto social, e a Startup Farm, para as novatas que queiram se relacionar com a Visa, mantenedora da aceleradora.