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A inadimplência do parcelado do cartão subiu 58,3% em um ano até março. O movimento trouxe alta de 10 pontos percentuais nos juros anuais cobrados na modalidade no período e a expectativa é de que as taxas continuem aumentando ao longo deste ano.

Mesmo com as quedas expressivas nos juros totais do rotativo do cartão – de 155,8 pontos percentuais (p.p.) em março deste ano contra igual período de 2017, de 490,3% ao ano (a.a.) para 334,5% a.a. –, as taxas do parcelado, em compensação, subiram 10,8 p.p. na mesma relação, 158,5% a.a. para 169,3% a.a.

Segundo o consultor Rafael Durer, um dos pontos que chama a atenção é o maior uso do parcelado, onde não apenas o saldo disponível no sistema financeiro como as próprias concessões aos consumidores ficaram bem acima do observado no próprio rotativo.

Os últimos dados do Banco Central (BC), por exemplo, apontam que enquanto o total de saldo no rotativo diminuiu 12,7% em março deste ano frente a igual mês de 2017 (de R$ 38,7 bilhões para R$ 33,7 bilhões), o parcelado registrou aumento de 52,2% na mesma comparação, de R$ 11,2 bilhões para R$ 17,1 bilhões.

Nas concessões, por sua vez, ainda que o rotativo tenha crescido 4,5% no período (de R$ 16,5 bilhões para R$ 17,3 bilhões), o parcelado avançou 44,5%, passando de R$ 2,6 bilhões para R$ 3,8 bilhões.

“Considerando que o parcelado recebe a proporção rotativada, o aumento da linha deveria estar proporcional à queda do rotativo [ou seja, se o saldo do rotativo caiu 12,7%, por exemplo, o saldo do parcelado no sistema deveria ter registrado uma porcentagem semelhante de alta]”, explicou o especialista ao DCI.

“Agora, se houve um avanço tão superior, o que estamos vendo é uma possível inadimplência futura”, diz Durer, e completa que, assim, falta tanto um esforço maior de educação financeira no mercado como “instruções e mensagens mais claras e transparentes” por parte dos bancos.

Ainda de acordo com dados do BC, os calotes registrados no rotativo foram de 34,5% em março de 2017 para 33,2% em igual mês deste ano – queda de 3,7% –, enquanto a inadimplência do parcelado foi de 1,2% para 1,9% – alta de 58,3%.

Já para o consultor da Boanerges&Cia Vitor França, ainda que o perfil dos clientes que fazem uso das modalidades represente um risco maior para as instituições financeiras, o reflexo nos spreads – diferença entre a taxa de captação e as repassadas ao consumidor – deveria ser maior.

“Vemos o BC buscando medidas para reduzir juros sem muito radicalismos, mas temos um problema estrutural no mercado bancário brasileiro”, comenta França e reforça que mesmo com queda na inadimplência, nos compulsórios e na taxa básica de juros (Selic), a falta de concorrência no mercado ainda “dificulta”.

“É uma inércia significativa, já que [o crédito] é bastante custoso para o cliente. A tendência é que, enquanto essa concentração bancária não mudar mais fortemente, as taxas continuem crescendo ao longo deste ano”, completa.

Esforços públicos

Do lado das autoridades regulatórias, por sua vez, também vemos esforços.

No início de abril, por exemplo, foram aprovadas as regras para as fintechs de crédito pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) – que limita empréstimos em R$ 15 mil e permite que as iniciativas façam análise de crédito, cobrança, representação de seguros e emissão de moeda eletrônica.

Além disso, teremos uma nova alteração nas regras do rotativo (aprovada no último dia 26 e que vigorará a partir de 1º de junho ) e mudanças no cheque especial (aprovada no último dia 10 e que passa a vigorar em 1º de julho).