Publicado em

O valor do real em relação ao dólar está influenciando mais a cotação local do ouro, do que propriamente a tensão geopolítica entre os Estados Unidos e a Rússia em torno da Guerra da Síria, no Oriente Médio.

No exterior, o preço do ouro subiu cerca de 1,67% nos últimos dez dias até ontem, do valor de US$ 1.328,50 para a faixa de US$ 1.350,70 por onça-troy, o equivalente a 31,1 gramas do metal.

No Brasil, a sabor de mais fatores de riscos comerciais e políticos domésticos, o grama do ouro negociado no segmento BM&F da B3 avançou 4,6% no mesmo período, de R$ 141,50 para R$ 148.

Esse tempo específico vai da calmaria dos preços do ouro antes do ataque químico ocorrido no dia 8 de abril, na cidade de Douma, na Síria, até ontem, na repercussão do bombardeio dos aliados (Estados Unidos, Reino Unido e França) em Damasco, com reclamações da Rússia junto ao Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Segundo o diretor de câmbio da corretora Ourominas, Mauriciano Cavalcante, a questão geopolítica tem “muito peso” na cotação internacional do metal, mas no caso do mercado brasileiro, o valor da moeda norte-americano possui maior influência sobre a cotação local do ouro, medida em reais por grama.

“No mundo, o ouro sobe por medo de algum problema geopolítico maior. No Brasil, até a conclusão das eleições presidenciais deste ano, o dólar vai pesar mais nas cotações. Está muito difícil fazer qualquer previsão sobre o ouro e o dólar”, avisou.

Sobre o ambiente dos negócios internacionais no dia de ontem, Cavalcante minimizou as consequências dos ataques dos aliados à Síria. “A questão comercial entre os Estados Unidos e a China teve maior relevância”, disse o diretor.

O gerente de câmbio do Banco Ourinvest, Bruno Foresti, avalia que a alta do ouro no mercado internacional embute um prêmio de risco. “Com a alta dos juros nos Estados Unidos, o ouro deveria estar se desvalorizando, porém, como este é um ano de muita volatilidade, aqui e lá fora, o preço do metal está subindo”, diz.

Em 2018, o valor do ouro em dólares aumentou 3,74% ante a cotação de US$ 1.302 por onça-troy no final de 2017. No Brasil, o preço contra o real subiu 7,3% no ano, de R$ 137,80 para R$ 148, ontem. “Esses quase 4 pontos percentuais de diferença respondem pelo cenário interno. A corrida eleitoral está praticamente aberta, o que traz muita incerteza sobre como será o próximo governo”, alerta o gerente do Ourinvest.

Para o investidor que pretende se proteger em ouro, Foresti lembra que o metal é um ativo que não gera renda (juros) e possui custos de custódia. “Um COE [instrumento de captação para instituições financeiras que combina atributos de renda fixa e variável] de capital garantido de dólar ou de ouro – dependendo do desenho – pode ser uma oportunidade nesse momento em que a Selic está menor, e sem correr grandes riscos”, disse.

Já Cavalcante, da Ourominas, pontua que o investimento financeiro no metal deve ser considerado para um horizonte de tempo maior. “O ouro deve ser visto como uma aplicação de longo prazo”, afirma.

Efeito Trump

Ontem, após os reflexos dos mercados sobre a Guerra na Síria; a questão comercial entre os Estados Unidos e a China retornou ao noticiário. O presidente norte-americano Donald Trump voltou ao tema numa rede social comentando a desvalorização das moedas – chinesa e russa – em relação ao dólar. “Não é aceitável”, pronunciou Trump no Twitter.

A autoridade referia-se diretamente aos impactos do aumento dos juros nos Estados Unidos. A alta das taxas pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano) valoriza o dólar em relação a outras moedas, prejudicando as exportações americanas e afetando o déficit da balança dos EUA.

Em outras palavras, por causa desse impacto, países exportadores e com moedas desvalorizadas como a China e a Rússia teriam vantagem comercial, na opinião do presidente Donald Trump.

Por aqui, a média do preço do dólar comercial apurada pelo banco central brasileiro (Ptax) fechou ontem em alta de 0,46%, a R$ 3,4263 ante o valor de R$ 3,4165 registrada na última sexta-feira (13). Na cotação à vista (spot), o dólar encerrou os negócios em queda de 0,42%, a R$ 3,4118.