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SÃO PAULO - Antecipar o pagamento de duplicatas - os títulos emitidos por empresas comprovando que há um valor a ser pago por um cliente em determinado prazo - é um nicho que começa a ser explorado no Brasil por diversas fintechs. Essas novatas que prestam serviços financeiros têm diferentes modelos de negócios para atender o empresário que busca alternativas para antecipar recursos por meio de um desconto no valor original do título.

 

 

Algumas fintechs oferecem uma espécie de leilão, no qual os interessados em comprar a duplicata fazem lances e o vendedor escolhe aquele que oferecer o menor desconto. Outras têm métodos próprios para calcular o risco de cada título e já oferecem uma taxa predefinida, ou seja, o vendedor já sabe quanto vai receber. As plataformas também são uma ponte para o interessado em comprar esses títulos obter uma taxa de retorno mais interessante que a de uma aplicação financeira convencional. 

 

 

 

 

Quanto à origem dos recursos, algumas fintechs têm parcerias com bancos; outras, com factorings, como são conhecidas as empresas de fomento mercantil - nome técnico da operação de antecipação de títulos. Outras são, elas próprias, factorings, e por isso compram as duplicatas com recursos próprios.  

 

 

 

 

Taxa prefixada

 

 

 

 

Criada em outubro de 2016, a Broadfactor, de Joinville (SC), atua principalmente com factorings, mas também com Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs). Segundo o CEO da Broadfactor, Ricardo Cury, os diferenciais da startup são as taxas prefixadas e o grande volume de processos feitos pelo sistema.

 

 

 

 

O fundador explica que um algoritmo, criado por ele próprio, calcula a taxa ideal de desconto do recebível por meio do acesso à documentações da empresa. O cálculo leva em conta, por exemplo, se a empresa tem um imóvel próprio ou alugado, e seu tempo de operação no mercado. Após o processo, a taxa é definida com base no risco.

 

 

 

 

Cury defende que o formato é mais transparente que o modelo de leilões. "Quando há um leilão de um título, os compradores acabam se afastando, pois ningúem comprará o título sem analisar o risco", afirma. Por isso ele afirma ser melhor prefixar o valor da duplicata, para que o investidor já saiba quanto irá pagar. 

 

 

 

 

A fintech, que se apresenta como uma plataforma de factoring colaborativo, trabalha com empresas com faturamento mensal a partir de R$ 150 mil. "É importante frisar que o comprador do recebível só pode investir no máximo 50% de seu faturamento mensal", ressalta.

 

 

 

 

A empresa monetiza por meio de mensalidade e também por operação. O plano sai por R$ 19,90 para o cedente, R$ 185,00 para as empresas de fomento e R$ 225 para os brokers, que são intermediadores das corretoras de valores e atuam com compra e venda de títulos. Nas operações é cobrada uma porcentagem de 0,3% do valor investido.

 

 

 

 

Hoje a plataforma conta com 200 cedentes cadastrados e 40 empresas de fomento. O fundador não revela o faturamento, mas diz que o volume de transações atingiu R$ 30 milhões desde seu surgimento.

 

 

 

 

Taxa dinâmica

 

 

 

 

O site Antecipa, criado por Camilo Telles, também trabalha com taxas predefinidas, mas de forma dinâmica - a definição depende do momento em que a operação é fechada e das condições no mercado naquele instante.

 

 

 

 

A startup atua como um marketplace que reúne cedentes (ou fornecedores de recebíveis) e os compradores. Estes são empresas com faturamento anual acima de R$ 300 milhões.

 

 

 

 

Segundo Telles, a taxa é definida dependendo do volume de dinheiro que se encontra dentro da plataforma. "Quando há mais gente querendo comprar, ou seja, mais dinheiro na plataforma, as taxas ficam menores", explica o fundador, acrescentando que essa análise funciona em um prazo de cinco a quinze minutos.

 

 

 

 

O resultado da operação, segundo o empreendedor, melhora a rentabilidade do comprador, que pode obter o equivalente a cerca de 200% a 300% do Certificado de Depósito Interbancário (CDI), taxa média dos juros cobrados na operações feitas entre bancos e referência para o rendimento de aplicações em renda fixa.

 

 

 

 

Para o fundador da Antecipa, quando há um leilão de um recebível, os compradores podem acabar diminuindo tanto as taxas de desconto para tentar adquirir esse ativo que deixam de ter uma rentabilidade maior se houvesse uma taxa já definida anteriormente. "O grande diferencial é que sou uma alternativa à rentabilidade da Selic, que está cada vez menor", afirma.

 

 

 

 

Telles diz que, no fim de toda a operação, as taxas ficam abaixo do que os bancos cobram para os fornecedores, o que diminui o desconto da duplicata e acaba sendo bom para o fornecedor. E, e ao mesmo tempo, o modelo mantém uma taxa maior que o CDI para o comprador, elevando sua rentabilidade.

 

 

 

 

Ele diz que a startup, que tem escritórios em São Paulo e Salvador, já recebeu R$ 300 mil em investimento anjo, sem revelar nomes. O fundador acredita que irá atingir um faturamento de R$ 1,5 milhão até o fim de 2018.

 

 

 

 

Negociação com fundos

 

 

 

 

A F(x) - leia-se Fde X - atua mais como uma negociante do que apenas uma intermediadora. Ela recebe propostas de uma micro ou pequena empresa (MPE) sobre quanto o empreendedor acredita que aquela duplicata vale. Posteriormente, negocia as taxas de juros e a liberação do dinheiro com os fundos de investimento cadastrados. Após a conversa, a F(X) disponibiliza as contrapropostas dos fundos, e então a MPE pode escolher a que entende ser melhor.

 

 

 

 

Se a MPE quiser fazer uma outra negociação com este mesmo fundo escolhido, ela poderá conversar com a instituição por fora da plataforma.

 

 

 

 

A F(X), criada em São Paulo em 2015, monetiza por meio da cobrança de um percentual (não revelado) por operação.

 

 

 

 

Do próprio bolso

 

 

 

 

A Rapidoo, de São Paulo, atua como uma factoring. Ela mesma compra as duplicatas emitidas pelas empresas, com o valor máximo de R$ 40 mil. O público-alvo é de empresas que tenham no máximo R$ 150 mil de faturamento ao mês e recebíveis com limite de até 90 dias.

 

 

 

 

A startup disponibiliza o dinheiro em até 2 horas, caso o crédito seja aprovado. Depois deposita 85% do valor acordado. O restante (15%) é liberado após a Rapidoo receber o pagamento integral da duplicata. A fintech consegue lucrar por meio do desconto aplicado na compra do título.

 

 

 

 

O modelo de trabalho é parecido com o da TrustHub, também com sede em São Paulo. Criada por dois sócios da gestora e administradora de recursos SRM, a fintech possui um fundo próprio de R$ 250 milhões para trabalhar especificamente no mercado de duplicatas.

 

 

 

 

Alexandre Góes, diretor da TrustHub, diz que o dinheiro disponível no fundo é do capital dos próprios fundadores, sob chancela da SRM.  "Trabalhamos com empresas com faturamento anual entre R$ 100 mil e R$ 30 milhões", afirma.

 

 

 

 

A plataforma foi lançada recentemente, no mês de novembro. O cliente se cadastra gratuitamente pelo site da fintech e também recebe em até 2 horas a aprovação ou não de seu titulo. O valor é liberado logo na sequência. A monetização se dá por meio do desconto aplicado no valor da duplicata.

 

 

 

 

Por ser muito recente, a empresa ainda não revela o faturamento, mas tem como meta atingir um volume de 15 milhões de operações por mês até o fim de janeiro de 2018.

 

 

 

 

Para o diretor da Associação Brasileira de Fintechs (ABFintechs), Paulo Deitos, mesmo já havendo várias fintechs atuando com antecipação de recebíveis e desconto de duplicatas, o mercado ainda é grande. "Todos os segmentos têm muito espaço para fintechs", diz. "Acredito que seja melhor a fintech primeiro dominar apenas um conteúdo e depois focar em outros serviços, ao invés de tentar ser boa em serviços diferentes de uma vez só", sugere.

 

 

 

 

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