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O número de brasileiros inadimplentes se mostra estável em um patamar elevado. Segundo especialistas, para resolver essa questão, o próximo governo poderá adotar medidas, mas de forma indireta.

Segundo o economista da Serasa Experian, Luiz Rabi, o cenário de alto desemprego contribui para a manutenção do número alto de pessoas nessa situação. “A taxa de inadimplência só está caindo dentro do sistema bancário, fora dele ela continua subindo, puxando o número de pessoas inadimplentes. E esse aumento se dá, principalmente, porque o desemprego não cai. A economia não está conseguindo gerar renda suficiente para que as pessoas consigam pagar ou renegociar suas dívidas” explica.

O último levantamento da Serasa Experian mostrou que o número de pessoas endividadas chegou a 61,8 milhões no mês de junho. Ao mesmo tempo, existem 13 milhões de desempregados no País.

Para Rabi, o papel do governo deve ser voltado para políticas macroeconômicas. “Até agora essa gestão conseguiu estancar a sangria da inadimplência, ela apresenta estabilidade, mas não veremos um cenário de queda tão cedo. De forma indireta, o que o próximo governo pode fazer é colocar o País numa trajetória de crescimento que consiga reduzir o desemprego e adotar soluções como as reformas fiscais” conclui.

Essa é a visão adotada também pela economista-chefe do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) Brasil, Marcela Kawauti. “A população ainda sente os efeitos da recessão, principalmente no mercado de trabalho, o que gera o crescimento da inadimplência das contas básicas, como água e luz. Para reverter esse cenário, a próxima gestão deve priorizar a educação financeira e políticas públicas que beneficiem o crescimento econômico.”

Já para o economista da Boa Vista Serviço Central de Proteção ao Crédito (SCPC), Flávio Calife, a solução seria melhorar a condição do sistema financeiro. “Ao estimular a competição do mercado, dando apoio ao surgimento de fintechs, por exemplo, nós temos queda nas taxas e a redução de juros. São necessárias ainda ações que influenciam diretamente o mercado de crédito, como o cadastro positivo”, comenta ao DCI.

Segundo ele, o cenário que encontramos, hoje, não representa uma crise, e portanto, medidas mais intervencionistas não se fazem necessárias. “Ao fazer uma política específica para a inadimplência, você cria algumas distorções no mercado, como o redirecionamento de recursos das empresas para que possam administrar essa nova medida”, diz.

“Além disso, com uma política que facilita e barateia a renegociação de dívidas de forma artificial, você incentiva comportamentos que tendem a ser prejudiciais à economia, mantendo perspectiva de endividamento”, conclui Calife.

O assessor econômico da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), Fábio Pina, comenta que uma proposta enviada pela instituição para o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), com o objetivo de reduzir o número de empresas e consumidores endividados criando linhas de crédito que os permitam refazer sua dívida financeira, poderia servir como modelo do que pode ser feito pelo próximo governo para tratar da questão.

“Ao contrário de algumas propostas que foram sugeridas, essa medida estaria então dando fôlego ao devedor, não subsídio. O governo deve atuar intervindo nas imperfeições no mercado, mas não assumindo o seu papel”, diz.

Dados de São Paulo

Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), realizada mensalmente pela FecomercioSP, a taxa de inadimplência permanece em um patamar elevado, com 19,6% das famílias paulistanas nessa situação, a maior registrada no ano.

Em junho, essa proporção era de 19,2%. O resultado também está acima do apurado em julho de 2017, de 18,1%.

Após uma sequência de três quedas consecutivas, a parcela de famílias endividadas na cidade de São Paulo voltou a subir em julho, passando de 49,4% em junho para os atuais 51,2%. Em números absolutos, são praticamente 2 milhões de famílias com algum tipo de dívida. O total de famílias na capital é de 3,9 milhões.

Entre as famílias inadimplentes, 49,1% têm dívidas com atraso de mais de 90 dias; 25,8% até um mês; e 23,7% entre um e três meses.

Na segmentação por faixa de renda, houve crescimento da taxa de endividamento para ambas as classes, com destaque para as famílias com renda superior a dez salários mínimos, que passou de 35,5% em junho para 40,6% em julho.

Para as famílias de renda inferior a dez salários mínimos, a taxa atingiu 54,8%, aumento de 0,6 ponto percentual (p.p.) em relação ao mês anterior.