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SÃO PAULO - O mercado de recuperação de crédito, em que atuam as empresas responsáveis por cobrar dívidas dos inadimplentes, movimentou R$ 120 bilhões de julho do ano passado até julho deste ano. Os dados são do Instituto Nacional de Estudo e Gestão de Inadimplência (IBeGI).



As companhias do setor possuem dois meios de receita: elas podem comprar a carteira de inadimplentes de uma empresa - os chamados "créditos podres" - ou atuar em nome da empresa na cobrança das dívidas, recebendo uma "taxa de sucesso" pelo trabalho - diferença entre o valor recebido do devedor e o valor repassado ao proprietário do crédito. Os números do Instituto são referentes à soma dos dois valores.



Em entrevista ao DCI, o economista e conselheiro do IBeGI, Vicente De Paula Oliveira, afirmou que as empresas de recuperação de crédito recebem um mandato dos credores no qual já está estabelecida a margem de negociação com os devedores - ou seja, o proprietário do crédito define o percentual da dívida que deseja receber e o restante fica com a empresa que faz a cobrança.



"O que está acontecendo muito agora são os mutirões, promovidos em locais públicos. Você monta um grande aparato e ali se faz a cobrança das dívidas", explicou.



Mutirões



De acordo com o economista, os mutirões, normalmente, são promovidos pelas empresas de serviço de proteção ao crédito, como a Serasa Experian e a Boa Vista SCPC. "Elas assumem tudo aquilo [dívidas] e passam a negociar, com um mandato praticamente 'em branco'", disse.



Oliveira apontou que, por possuírem um mandato mais elástico, essas empresas possuem mais liberdade em barganhar a dívida e acabam conseguindo recuperar o crédito com maior facilidade. Dessa forma, muitas vezes as empresas especializadas em cobrança de dívidas acabam ficando fora das negociações.



Regulação



Apesar de haver empresas especializadas em cobranças de dívidas, existe um alto número de subsidiárias de empresas de outro setor atuando na recuperação de crédito, o que faz com que o setor possua pouca regulamentação. Segundo Oliveira, enquanto a Classificação Nacional de Atividade Econômica (CNAE) aponta em torno de 15 mil empresas atuando no ramo, apenas cerca de 100 firmas estão cadastradas na Associação Nacional das empresas de Recuperação de Crédito (Aserc).



"Nem todas essas empresas têm a recuperação de crédito como atividade principal, então há essa disparidade nos números. As empresas associadas estão fundamentalmente em São Paulo e as outras estão espalhadas", disse.



Oliveira disse que muitos bancos, inclusive, criam subsidiárias para atuar especificamente com a cobrança de dívidas. "O que as instituições financeiras fazem é: pegar os inadimplidos, passar para essa subsidiária e ela contrata uma empresa de recuperação de crédito", explicou.



Modernização



O economista ressaltou que, embora sejam vistas como o "patinho feio" da economia, as empresas de recuperação de crédito estão investindo em novas tecnologias e soluções para melhorar a imagem e a produtividade do setor.



"O histórico da cobrança tem um folclore muito grande. Antes, havia bandinhas: os cobradores se vestiam de vermelho, iam à porta da casa do devedor e começavam a tocar. Agora, a coisa evoluiu, melhorou", lembra Oliveira.



O conselheiro do IBeGI ressaltou que o setor emprega mais de 300 mil pessoas e a maioria dos funcionários que trabalham nas cobranças massivas, como as de contas de telefone, é de jovens.



Oliveira comentou que o setor está investindo muito em treinamento e soluções operacionais para evitar as coações e constrangimentos que existiam antigamente. "Contudo, quem está ao telefone, às vezes, são pessoas no primeiro emprego. Então, apesar do treinamento, sempre ocorre um desvio", ressalvou.