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São Paulo - A opção pela venda de "créditos podres", aqueles que normalmente estão vencidos há mais de seis meses e são mais difíceis de recuperar, depende da necessidade de resultados do banco, afirmaram especialistas ouvidos pelo DCI.

De acordo com eles, o investimento na cobrança do empréstimo - seja a partir de um setor próprio, seja por meio de terceirização - pode ser uma boa opção se a instituição financeira não precisar de retorno imediato.

"Normalmente, ganha-se mais recuperando o crédito do que vendendo a carteira, mas o tempo [de retorno] é mais longo", avaliou Christian Vincent, diretor da consultoria GoOn Risk.

Segundo o especialista, o valor pago na compra de créditos vencidos há mais de um ano não costuma ser maior que 10% do valor de face da carteira, enquanto para aqueles de mais difícil recuperação, como os vencidos há mais de três anos, o valor dificilmente passa de 3,5%.

O sócio consultor da GoOn Eduardo Tambellini apontou que, além de investir na análise de riscos na concessão de crédito (credit score), os grandes bancos também investem na classificação de riscos ao longo do período do empréstimo, para identificar possíveis calotes (behavior score), e depois que o crédito vence, para identificar o perfil do inadimplente e as melhores formas de abordagem (collection score).

"A maioria dos grandes bancos tem uma equipe estruturada, dedicada a montar modelos de score que são redesenhados constantemente", disse o consultor.

Para Flávio Suchek, presidente da Recovery do Brasil, o mercado brasileiro ainda é muito incipiente em venda e terceirização de carteiras de créditos em atrasos. "Nos Estados Unidos e na Europa, esse é uma caminho muito mais natural", observou.

De acordo com ele, em uma projeção conservadora, com base em dados do Banco Central, o País gera cerca de R$ 100 bilhões de crédito em atraso por ano. "E o saldo que de alguma forma é negociado não passa de R$ 15 bilhões", disse.

Na avaliação de Suchek, o País deve passar por uma terceira onda de negócios de cobrança, com os bancos terceirizando o serviço para empresas como a Recovery em maior escala - a primeira onda, segundo ele, foi na crise de 2008 e a segunda em 2010.

"A recuperação não é o core business [negócio principal] do banco. A grande parte da recuperação que ele conseguem fazer está no curto prazo. No longo prazo, o volume de recuperação é mais baixo", avaliou o especialista.

Vantagens

Suchek afirmou que as instituições financeiras começaram a olhar para a cessão das carteiras de créditos podres como uma operação que "faz sentido". Ele apontou que o cenário atual, de inflação alta, desemprego crescente e dificuldade de rolagem das dívidas, deve pressionar a inadimplência bancária e ajudar a impulsionar o mercado de recuperação de crédito.

Segundo Vincent, da GoOn, normalmente os bancos optam por vender uma carteira de créditos podres para "limpar" o ativo do balanço, reduzindo necessidade de capital imobilizado para atender as exigências regulatórias e abrindo espaço para realizar novos empréstimos - o chamado Índice de Basileia exige que a instituição financeira tenha, pelo menos, R$ 11 em caixa para cada R$ 100 emprestados.

Tambellini, da GoOn, lembrou ainda que muitos bancos utilizam os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), em que cedem os recebíveis para um fundo, às vezes logo depois que eles são gerados, mediante uma taxa de desconto sobre o valor da dívida. A partir de então os créditos são pagos ao fundo, que fica responsável pela cobrança.

"A estratégia vai depender da necessidade de caixa", observou. "Algumas empresas estão pressionadas para entregar resultados e precisam de receita rápida", completou.

Os especialistas apontaram que, normalmente, os créditos são vendidos ou negociados depois que estão há mais de 180 dias vencidos. De acordo com eles, a maior parte já foi baixada para prejuízo no balanço dos bancos - ou seja, não precisam mais de provisões para cobrir a inadimplência, as chamadas provisões para devedores duvidosos (PDD).