Reaproveitamento: uniforme reciclado vira peças que geram renda

Em projeto de economia circular, Gocil faz parceria com ONGs para reaproveitamento de materiais descartados e recompra os novos produtos

São Paulo – Ações socioambientais podem ser combinadas com boas práticas de gestão. É isso que a Gocil – empresa há trinta anos no mercado de segurança e limpeza – faz com seu programa de economia circular, o Reforme.A iniciativa, implantada há dois anos, possibilitou à empresa reduzir cerca de R$ 250 mil mensais em custos de transportes, trocando o descarte e a incineração de materiais excedentes da companhia pelo reaproveitamento, por meio de parcerias com várias organizações não-governamentais. Ou seja, o programa, ao mesmo tempo incluiu a sustentabilidade na rotina da Gocil e proporcionou um retorno social e econômico. Apesar da redução de gastos, o dinheiro acaba reinvestido em outras atividades, como a estruturação desse serviço de economia circular, mas com um viés social, explica Welder Peçanha, vice-presidente da empresa. “Esse resultado não traz um reflexo de ganho, mas também não nos prejudica. Estamos gerando o bem sem necessariamente onerar a empresa”, comenta.Um dos principais pontos do projeto é dar oportunidade a entidades com maior dificuldade de acessar recursos financeiros destinados a ações sociais, ressalta Peçanha. “A nossa grande preocupação é olhar quem precisa. Olhamos para quem não recebe subsídio de governos”, explica. Entre as propostas do projeto está dar oportunidade para uma parcela carente da população, estabelecendo, assim, aliança com instituições sociais ligadas a esses grupos sociais excluídos dos auxílios assistenciais oficiais. A ONG Retece, participante do Reforme, atua em Santo André (SP) recebendo e fazendo o reaproveitamento o material têxtil enviado semestralmente pela Gocil. Além dela, a ONG recebe doações de material de outras empresas para a confecção de blusas, vestidos, camisetas, bolsas, cintos e outros acessórios. Esses produtos são doados para a comunidades carentes, vendidos em bazares e também revendidos para a própria Gocil, que distribui as peças como brindes da companhia. “Compramos parte desse material para presentear nossos clientes. Antes olhávamos muitos catálogos de brinde, hoje priorizamos o Reforme”, explica Peçanha sobre o impacto do projeto social também na imagem da Gocil.O vice-presidente diz que a adoção de práticas de sustentabilidade e, principalmente, de economia circular ganha cada vez mais espaço no cenário atual. “Nós começamos a perceber claramente que isso é uma tendência, principalmente olhando o tripé da sustentabilidade. A partir dessa ideia começamos a fazer uma série de reuniões internas para entender como faríamos impacto”, afirma Peçanha.O processoO reaproveitamento dos uniformes, um dos materiais mais comuns, começa com a descaracterização, ou seja, todos os logos da Gocil são retirados e separados. A peça, então, é lavada e, posteriormente, transportada para a ONG designada, no caso a Retece e, lá, é separada e distribuída de acordo com a logística de produção de cada entidade parceria.O processo funciona em cadeia: a Gocil doa o material para o reaproveitamento; a Biotera é a responsável por organizar todo esse sistema de economia circular, a Max Trans Logística realiza o transporte do material para os responsáveis pelas etapas finais do processo de reutilização dos materiais descartados. Dentre elas, a ONG Retece.A produção não segue uma fórmula específica, podendo ser alterada de acordo com os interesses e necessidades da ONG parceira. Peçanha esclarece que a entidade é livre para definir como e quais itens serão produzidos, embora a Gocil dê um direcionamento. “Fazemos sugestão dos itens, pois compramos parte disso para usar como brinde. Mas não fazemos um acompanhamento de todas as fases”.A ONG recebe semanalmente quase 400 quilos de materiais descartados, entre cintos, sapatos, camisas, calças, jaquetas, sobretudos e até bonés para reaproveitamento. A produção é dividida entre os itens que serão revendidos para a Gocil, vendidos a bazares e doados a grupos comunitários. Todos esses passos são planejados para que a produção dos novos produtos tenha a participação de todos, contemplando suas habilidades, comenta Alice Zompero, coordenadora da ONG Retece.Para Zompero, mesmo com a conquista de espaço dessas iniciativas sustentáveis, ainda há um grande estigma sobre a real importância delas. “É difícil fazer as pessoas entenderem que é possível a gente criar produtos em cima de uniformes e outros materiais que seriam incinerados”. Mas as empresas, inclusive a Gocil, segundo ela, já vêm mudando esse conceito. “Felizmente, hoje essa característica das empresas, sobre o que é feito com o lixo, é muito importante em licitações, por exemplo, e concorrência no mercado”, diz. Medidas inclusivasFocada no gênero feminino, a ONG Retece é voltada a dar uma oportunidade a mulheres com maior dificuldade de ingressar no mercado de trabalho. Zompero defende que é essencial proporcionar essa oportunidade a trabalhadoras de classe social de menor renda. Por isso, a ONG contrata mulheres, principalmente carentes, dando a elas a chance de exercerem um ofício, ter um trabalho fixo e garantir uma renda mensal. “Existem muitas mulheres que acabam sustentando a família com a renda que elas têm aqui”, conta a coordenadora da entidade.”Por serem mães e assumirem as obrigações da família, essas mulheres têm mais dificuldade de trabalhar fora. O projeto acaba empoderando as mulheres, porque aqui podem ter horários flexíveis e, assim, levar e buscar os filhos na escola. Existe toda uma assistência familiar caso seja necessário, porque é um projeto social”, explica Zompero.

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