3 filmes indicados ao Globo de Ouro para assistir antes da premiação

Alguns destes filmes podem estar em cartaz nos cinemas

A 83ª edição anual do Globo de Ouro está quase aí! A maior festa do ano em Hollywood acontecerá no domingo, 11 de janeiro, homenageando os melhores do cinema e dos podcasts. Para quem é fã de cinema, veja aqui três filmes que você precisa assistir antes da premiação.

O Agente Secreto

“O Agente Secreto” é um dos filmes mais comentados de Kleber Mendonça Filho nos últimos anos. Ambientado no Brasil de 1977, em pleno regime militar, o longa aposta menos em explicações diretas e mais em clima, observação e subtexto. A história se constrói aos poucos, exigindo atenção do espectador e recusando soluções fáceis.

O protagonista é Marcelo, interpretado por Wagner Moura. Ele chega a Recife dirigindo um Fusca amarelo, sem que o filme revele de imediato o motivo da viagem. O personagem fala pouco, observa muito e se move com cautela. Em um país marcado pela vigilância e pela repressão, quase ninguém diz exatamente o que pensa. O silêncio funciona como mecanismo de sobrevivência.

A narrativa se passa em um momento central da ditadura militar, que durou 21 anos no Brasil. Esse contexto atravessa todas as ações do filme, mesmo quando não é explicitado. Assassinatos aparecem como parte da rotina. Alguns estão ligados à perseguição política. Outros surgem como resultado do crime comum. A distinção entre essas violências é borrada, o que reforça a sensação de um país onde a vida perdeu valor institucional.

Logo na sequência de abertura, o tom é estabelecido. Durante o Carnaval, Marcelo para em um posto de gasolina nos arredores de Recife e se depara com um cadáver abandonado. Dois policiais chegam ao local, mas demonstram mais interesse no carro do visitante do que no corpo. A abordagem termina em um pedido informal de dinheiro. Ao seguir viagem, toca “If You Leave Me Now”, da banda Chicago. A trilha sonora, composta por músicas populares da época, cria um contraste constante com a atmosfera de medo.

A partir daí, “O Agente Secreto” avança em ritmo próprio. Marcelo tenta manter contato com o filho pequeno, Fernando, que vive com os avós maternos. A relação entre os dois é simples e direta, marcada por perguntas infantis que o pai não consegue responder. O filme trata da paternidade como risco, mas também como necessidade emocional.

O elenco de personagens secundários amplia o retrato desse Brasil fragmentado. Dona Sebastiana, vivida por Tânia Maria, é o principal apoio de Marcelo em Recife. Já os assassinos Agusto e Bobbi, interpretados por Roney Villela e Gabriel Leone, funcionam como espelho da banalização da violência. Eles executam o trabalho com naturalidade, discutem detalhes práticos e mantêm uma relação quase familiar. Mais adiante surge Vilmar, personagem de Kaiony Venâncio, que entra na trama como alguém empurrado pelo desespero econômico e por um senso torto de obrigação.

Há também Claudia, interpretada por Hermila Guedes, vizinha de Dona Sebastiana. O envolvimento entre ela e Marcelo é breve, sem promessas ou idealizações. O filme evita romantizar esse encontro e o insere em um contexto maior de ausências familiares. Marcelo é viúvo. Sua mãe desapareceu. Crianças e adultos lidam com perdas que não são totalmente explicadas.

Onde assistir: cartaz nos cinemas brasileiros.

Uma Batalha Após a Outra

“Uma Batalha Após a Outra”, novo filme de Paul Thomas Anderson, chega em um momento em que o conflito parece permanente. Inspirado em “Vineland”, de Thomas Pynchon, o longa usa uma história ambientada nos anos 1980 para dialogar diretamente com tensões políticas e sociais dos anos 2020, sem recorrer a slogans ou rótulos explícitos. O resultado é um filme de resistência que fala menos de ideologias e mais de pessoas presas a ciclos de violência, poder e esquecimento.

A trama começa em ritmo acelerado. Um grupo revolucionário chamado French 75 realiza uma ação na fronteira entre México e Estados Unidos, libertando imigrantes e fazendo oficiais reféns. A líder é Perfidia Beverly Hills (Teyana Taylor), figura central da resistência. Do outro lado está o coronel Steven J. Lockjaw (Sean Penn), que passa a persegui-la de forma obsessiva. Ao lado de Perfidia está Bob Ferguson (Leonardo DiCaprio), com quem ela tem uma filha, Willa.

Anos depois, Bob vive como pai solteiro e tenta conciliar a militância com a criação da filha adolescente. Lockjaw segue ativo, atacando antigos membros da French 75, o que obriga Deandra (Regina Hall) a entrar novamente em ação para proteger Willa. A narrativa avança como um filme de ação político, sem pausas longas, sempre marcada por fuga, tensão e memória falha. Até revolucionários esquecem senhas, nomes e caminhos.

Mesmo nos momentos mais contidos, o filme mantém uma inquietação constante. A trilha sonora de Jonny Greenwood é decisiva para esse efeito, funcionando quase como um alarme permanente. A câmera acompanha os personagens em deslocamento, reforçando a sensação de instabilidade e urgência.

Leonardo DiCaprio entrega uma atuação contida e precisa, sustentada pela relação com a filha, interpretada por Chase Infiniti. Essa ligação emocional dá sentido ao filme. Teyana Taylor e Regina Hall reforçam a força do elenco, mas Sean Penn chama atenção ao criar um vilão que mistura caricatura e verdade, poder e ridículo.

Sem entrar em detalhes do desfecho, “Uma Batalha Após a Outra” também fala sobre apagamento histórico e controle da narrativa. O filme sugere que quem detém o poder escolhe o que deve ser lembrado e o que deve ser esquecido. Ainda assim, Anderson evita o tom panfletário. Tudo está ancorado nos personagens e na linguagem do cinema de ação.

Mais do que um comentário político, o filme é profundamente humanista. Paul Thomas Anderson se interessa pelas fragilidades, pelos vínculos familiares e pela persistência diante do caos. Em vez de cinismo ou raiva, oferece movimento, empatia e a ideia de que não se trata de uma derrota contínua, mas de uma batalha que precisa ser travada.

Onde assistir: HBO Max.

Valor Sentimental

“O Valor Sentimental”, filme de Joachim Trier, parte de duas imagens simples para tratar de temas complexos: a casa como corpo vivo e a atriz à beira do colapso antes de entrar em cena. A partir daí, o diretor constrói um drama familiar sobre memória, arte e feridas antigas, em um registro contido, paciente e profundamente emocional.

A história acompanha Nora, atriz vivida por Renate Reinsve, que enfrenta a morte da mãe e o reaparecimento do pai ausente, Gustav, um cineasta interpretado por Stellan Skarsgård. A relação entre eles é marcada por silêncios e ressentimentos nunca totalmente explicados. Quando Gustav diz ter escrito um filme para a filha, Nora se recusa até a ler o roteiro, deixando claro que o gesto chega tarde demais.

Sem Nora, Gustav segue para um festival de cinema, onde conhece uma atriz americana, Rachel, vivida por Elle Fanning, que aceita o papel rejeitado. Enquanto isso, a irmã de Nora, Agnes, investiga a própria história familiar, conectando passado, trauma e apagamentos. Trier entrelaça essas trajetórias sem pressa, evitando confrontos explícitos e apostando no que fica suspenso entre os personagens.

O filme avança com delicadeza, sem melodrama. As revelações surgem aos poucos, em gestos, pausas e olhares. O clímax, silencioso, sintetiza o que o longa constrói desde o início: sentimentos que não precisam ser explicados para serem compreendidos.

“O Valor Sentimental” se apoia em atuações precisas e em uma encenação discreta, que reforça a sensação de intimidade. Trier observa como a arte nasce da experiência vivida e como a memória familiar molda quem somos. É um filme sobre criar, lembrar e conviver com o que não foi dito.

Onde assistir: Prime Video.

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