Depois do velório, todos vão embora. E quem perdeu alguém, fica como?

Psicóloga Raissa Ramos Ferreira Pedroli fala sobre luto, solidão e a pressão para mostrar que a vida já voltou ao normal

Depois do velório, as mensagens diminuem, as flores desaparecem e, aos poucos, as pessoas param de perguntar como você está. Para quem perdeu alguém, porém, a ausência continua. E junto com ela pode aparecer uma nova cobrança: a de estar melhor.

A psicóloga e psicanalista Raissa Ramos Ferreira Pedroli (CRP 14048277), especialista em Lutos e Perdas, conhece bem essa realidade. Há anos, ela acompanha pessoas enlutadas e estuda o que acontece com quem precisa continuar vivendo depois da morte de alguém importante.

“Às vezes, a pessoa enlutada só tem uma notícia velha. Perguntam ‘como você está?’, mas ela não tem uma novidade para dar. A pessoa continua morta, a falta continua ali. Parece que existe uma expectativa de que, depois de algum tempo, ela tenha alguma melhora para contar”, explica Raissa.

“Notícia velha” virou, inclusive, o nome de um dos capítulos de Sinto Muito, livro escrito pela psicóloga a partir da experiência clínica, dos estudos sobre luto e também de sua própria história com a morte, que começou ainda na infância.

Em vez de ensinar alguém a “superar” uma perda, Raissa propõe olhar para outra questão: como cuidar da vida de quem ficou?

“Sobre a morte, realmente não há mais o que fazer. A pessoa morreu. Mas há muito o que fazer sobre a vida de quem ficou.”

Por que temos tanta pressa para que alguém fique bem?

“Você precisa ser forte.”

“Foi melhor assim.”

“Você precisa seguir em frente.”

São frases comuns e, quase sempre, ditas por alguém que gostaria de ajudar. Mas nem sempre aquilo que parece consolo é recebido dessa forma por quem está sofrendo.

Em Sinto Muito, Raissa chama essa tentativa de encontrar uma resposta rápida para a dor do outro de “a crueldade do consolo”.

“A morte não é justa. Não é boa, não é legal. Não existe uma maneira de transformar aquilo em algo ‘ok’. Quando alguém perde uma pessoa que ama, às vezes o que temos para oferecer é presença. Não uma solução.”

Para a psicóloga, nem toda dor precisa ser respondida com um conselho ou uma explicação. Às vezes, estar ao lado e reconhecer o sofrimento pode ser mais importante do que tentar encontrar a frase perfeita.

É nesse lugar que também aparece o título do livro: Sinto Muito.

Duas palavras simples para uma situação em que, muitas vezes, realmente não sabemos o que dizer.

E quando quem morreu continua no celular?

A forma de viver o luto também mudou com a tecnologia. Hoje, alguém pode morrer e continuar aparecendo diariamente na tela do celular. Ficam as fotografias, os vídeos, as conversas antigas, os áudios no WhatsApp, os perfis nas redes sociais e até aquelas lembranças automáticas que surgem sem aviso.

Raissa observa que as redes sociais também mudaram a maneira como a dor é compartilhada.

“A morte saiu da esfera privada para a pública e também virou um objeto de consumo. Não basta saber que alguém morreu. Existe uma curiosidade sobre como morreu, do quê, quanto tempo levou. E, ao mesmo tempo, parece existir uma necessidade de demonstrar publicamente que estamos sofrendo”, observa.

Esse novo jeito de conviver com as lembranças de quem morreu é um dos assuntos abordados por Raissa Ramos Ferreira Pedroli em Sinto Muito. O livro fala tanto com quem enfrenta uma perda quanto com familiares e amigos que querem ajudar, mas nem sempre sabem como.

Antes de estudar o luto, Raissa cresceu perto da morte

A relação de Raissa com a morte começou muito antes da Psicologia. Ela cresceu em uma família ligada ao ramo funerário. Por isso, ainda criança, teve contato com velórios, despedidas e situações que muitas pessoas só conhecem na vida adulta.

“Eu conheci a morte primeiro de uma maneira muito crua. Só depois fui entender a parte eufêmica, a maneira mais bonita que as pessoas encontravam para falar dela. Para mim, falar que alguém morreu era normal. Depois descobri que, para muita gente, não era.”

Essa parte de sua história pessoal ficou durante anos distante de sua apresentação profissional. No livro, porém, Raissa recupera memórias da infância e mostra como essa convivência ajudou a formar a profissional que mais tarde escolheria trabalhar justamente com pessoas enlutadas.

“Essa proximidade me deixou sem medo de estar perto, de fazer as perguntas difíceis e de escutar conversas e respostas dolorosas.”

Mas estudar a morte não significa estar preparado para perder alguém. Essa é uma das contradições que a própria psicóloga reconhece.

“Ser especialista não protege a gente de sofrer. Eu conheço a teoria, acompanho pacientes, estudo o luto há anos. Mas, quando alguém que eu amo morre, eu também sou uma pessoa enlutada.”

Um livro sobre luto que não ensina a esquecer

Com 142 páginas, Sinto Muito, de Raissa Ramos Ferreira Pedroli, reúne experiências da prática clínica, reflexões sobre o luto e memórias pessoais da autora.

Os textos podem ser lidos separadamente e passam por questões que fazem parte da rotina de muitas pessoas depois de uma perda: a culpa, as lembranças, o corpo, as datas importantes, as redes sociais e a dificuldade de seguir vivendo quando alguém não está 

Raissa prefere pensar no livro como uma companhia. “Eu pensei nele como uma companhia. Uma coisa que a pessoa pudesse levar na bolsa, deixar no carro, na cabeceira, abrir quando tivesse vontade.”

Sinto Muito será lançado neste domingo (27), em Campo Grande (MS), pelo Instituto de Formação e Capacitação Ser.

Leia o Jornal DCI.

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