Vilinha histórica da Vila Mariana é demolida e revolta moradores
Conjunto quase centenário ficava na Avenida Conselheiro Rodrigues Alves
Vilinha da Vila Mariana - GoogleView
A demolição da Vilinha da Vila Mariana provocou reação de moradores, urbanistas e defensores da preservação histórica em São Paulo. O conjunto de sobrados, localizado na Avenida Conselheiro Rodrigues Alves, na zona sul da capital, veio abaixo no fim de semana em meio a uma disputa que se arrastava havia cerca de 20 anos pelo tombamento do imóvel.
Nas redes sociais, o vereador e urbanista Nabil Bonduki classificou a cena como um “cenário de guerra” e criticou a derrubada da vila, que era considerada por movimentos de preservação um raro exemplo de ocupação urbana antiga em uma região cada vez mais pressionada pela verticalização.
A vilinha ficava entre a Avenida Conselheiro Rodrigues Alves e a Rua Doutor Fabrício Vampré. O conjunto era formado por sete sobrados construídos por volta da década de 1930 por imigrantes italianos. Com quase 100 anos de história, as casas eram vistas por moradores como parte da memória afetiva e arquitetônica da Vila Mariana.
“Só nos resta pedir punição rigorosa aos envolvidos, São Paulo não pode continuar sendo terra de ninguém, ou melhor terra para alguns!”, escreveu um seguidor. “A cidade entregue as construtoras, lamentável”, disse outra.
O que era a Vilinha da Vila Mariana?
A Vilinha da Vila Mariana era um pequeno conjunto residencial formado por sobrados antigos, com jardim interno e características arquitetônicas ligadas à ocupação tradicional do bairro. O espaço ganhou o apelido de “vilinha” justamente pela configuração das casas e pela mobilização da vizinhança contra a demolição.
O imóvel estava desocupado desde 2017, quando os últimos inquilinos deixaram o local. Desde 2019, a área permanecia fechada por tapumes e muros, enquanto moradores, especialistas e conselheiros discutiam se o conjunto deveria ser preservado ou dar lugar a novos empreendimentos.
Ao abrir o processo de análise, o próprio Conpresp, conselho municipal responsável pela preservação do patrimônio histórico, cultural e ambiental de São Paulo, reconheceu valores ambientais, históricos, arquitetônicos e afetivos do conjunto. O órgão também apontou o valor testemunhal das construções ligadas a imigrantes italianos e destacou que a tipologia era característica do bairro.
O pedido de tombamento da Vilinha da Vila Mariana foi protocolado por moradores ainda em 2006. Apesar disso, a análise só começou anos depois, em 2019, quando o risco de demolição voltou a mobilizar a vizinhança. O processo passou por sucessivos adiamentos até chegar novamente à pauta do Conpresp em 2026. Segundo Nabil Bonduki, o conselho havia negado o pedido de tombamento na última reunião, mas a decisão ainda poderia ser contestada por recurso dentro do prazo legal.
Para defensores da preservação, a demolição antes do esgotamento da discussão representa uma perda irreversível para a memória urbana de São Paulo. A crítica é que, mesmo quando há mobilização social e reconhecimento técnico do valor histórico, a proteção efetiva do patrimônio pode chegar tarde demais.
Por que a demolição causou revolta?
A queda da vilinha ocorre em um contexto de forte transformação imobiliária na Vila Mariana. O bairro, tradicionalmente marcado por casas, vilas e construções de menor escala, tem recebido cada vez mais prédios residenciais e empreendimentos de alto padrão.
Para moradores e ativistas, o caso simboliza uma disputa recorrente em São Paulo: de um lado, a pressão do mercado imobiliário por terrenos bem localizados; de outro, a tentativa de preservar espaços que guardam memória, identidade e modos de morar que estão desaparecendo.
Nabil Bonduki afirmou que a demolição mostra uma falha do Conpresp em cumprir sua missão de proteger bens culturais da cidade. O vereador também criticou a atuação da Prefeitura, que, na avaliação dele, estaria mais alinhada aos interesses das construtoras do que aos pedidos da população pela preservação da memória paulistana.
A demolição da Vilinha da Vila Mariana reforça o debate sobre o futuro das vilas históricas em São Paulo. Esses conjuntos, comuns em bairros antigos da capital, ajudam a contar a história da cidade antes da verticalização intensa e da substituição de casas por torres residenciais.
Além do valor arquitetônico, esses espaços preservam formas de convivência urbana raras na metrópole atual, com jardins, áreas comuns, escala humana e relação direta com a rua.
Com a derrubada da vilinha, moradores e especialistas lamentam não apenas a perda de sete sobrados antigos, mas também de um fragmento da história da Vila Mariana. Para quem acompanhava a luta pelo tombamento, o episódio deixa uma pergunta incômoda: de que adianta reconhecer o valor de um patrimônio se a proteção não chega a tempo?