Publicado em

São Paulo - Os microempreendedores negros têm maior dificuldade para obter crédito no Brasil: 44,6% da demanda desses empresários não é atendida, enquanto que 29,4% dos brancos enfrentam esse problema.

Os dados da pesquisa "Acesso dos empreendedores afro-brasileiros ao sistema de crédito", realizada em 2013, foram divulgados ontem, em evento organizado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), cujo tema foi a promoção de negócios com impacto social.

Autor da pesquisa e palestrante no evento, Marcelo Paixão, professor da Universidade de Austin-Texas afirmou, em entrevista concedida para o DCI, que as dificuldades enfrentadas pelos negros superam as implicações da crise econômica.

"O perfil socioeconômico da maioria da população negra é o primeiro problema, já que grande parte dela tem maior exposição à pobreza e acesso limitado a melhores ocupações [de trabalho], o que prejudica a obtenção de crédito", disse.

Além desse impeditivo, seguiu o economista, os negros também encontram dificuldades relacionadas ao "fator cor da pele". Segundo ele, o ambiente financeiro, no Brasil, não é acessível para esses empreendedores. "É necessário que seja criado um espaço bancário convidativo para pessoas que não estejam 'bem vestidas'", exemplificou.

Os números da pesquisa indicam que 22,2% dos microempreendedores negros acreditam não ter recebido crédito "por discriminação de distintas naturezas", opção que não foi citada pelos empresários de outras raças.

Para os especialistas presentes na conferência, o perfil dos funcionários de companhias financeiras, majoritariamente branco, também não colabora para a geração de um ambiente mais inclusivo no setor.

Parte do problema teria raízes na desigualdade vista nos sistemas de educação brasileiros. "A gente ainda nota uma sub-representação [dos negros] entre as pessoas que possuem ensino superior completo", disse Luana Marques Garcia, especialista da divisão de gênero e diversidade do BID e fundadora do Inova Capital.

Ainda assim, continuou ela, o contingente de empreendedores negros que empregam ao menos uma pessoa "é maior que a soma dos empregadores no Chile, na Argentina, no Uruguai e no Paraguai."

Apoio do setor privado

Além de políticas públicas, como a adoção de cotas em universidades, o setor privado também pode agir de forma positiva para reduzir essas disparidades sociais. "Os fundos de investimento, por exemplo, podem fomentar mais os projetos que diminuam as desigualdades raciais e de gênero", considerou Luana.

Diretor executivo da Vox Capital, Daniel Izzo seguiu a mesma linha. "Quando você faz uma decisão de investimento, você afeta o futuro", disse ele. "Será que estamos investindo nos projetos que queremos ver avançar nos próximos anos? O investidor precisa pensar além do retorno financeiro, precisa pensar no que ele está causando com o dinheiro que está aplicando", completou.

Reformas do governo

Ao falar sobre as alterações nas leis trabalhistas e previdenciárias, Paixão afirmou que as mudanças devem onerar os pobres e manter vantagens de categorias mais ricas. "Esse impacto é desproporcional junto aos mais pobres e junto aos mais negros", disse ele.

Ele também criticou a reforma do trabalho rural que tramita no Congresso Nacional. "Uma proposta que permite a troca de emprego por moradia e comida é uma volta ao século dezenove, à escravidão", disse. "Precisamos de reformas que reduzam a desigualdade."