O que é o golpe do doce? Entenda como clientes pagaram mais de R$ 300 na Expocrato
Situação aconteceu em feira do Ceará
GettyUma compra que deveria custar poucos reais terminou em cobranças superiores a R$ 300 e colocou uma barraca de doces da Expocrato 2026, no Ceará, no centro de uma investigação dos órgãos de defesa do consumidor. O caso ganhou repercussão nacional após vídeos publicados nas redes sociais mostrarem clientes surpresos com o valor final da compra e relatarem constrangimento ao tentar desistir da aquisição.
Como funciona o chamado “golpe do doce”?
O episódio passou a ser conhecido na internet como “golpe do doce”, embora a empresa responsável negue qualquer irregularidade. A fiscalização realizada pelo Ministério Público do Ceará (MPCE), por meio do Programa Estadual de Proteção e Defesa do Consumidor (Decon), identificou falhas na forma como as informações eram apresentadas ao público, reacendendo o debate sobre os limites da venda de produtos por peso e os direitos do consumidor.
O modelo de venda em si não é ilegal. O consumidor escolhe a quantidade desejada do produto, que é pesada na hora, e o valor final é calculado de acordo com o peso. A controvérsia surge quando o comprador não consegue estimar quanto a porção escolhida representa em gramas e, consequentemente, quanto custará ao chegar à balança.
Na Expocrato, a doceria informava cobrar R$ 19,90 a cada 100 gramas, ou R$ 199 o quilo. Nas redes sociais, porém, consumidores afirmaram que apenas descobriram o preço total depois que o doce já havia sido cortado, quando algumas compras ultrapassaram R$ 100 e, em determinados relatos, chegaram a superar R$ 300.
Além do valor elevado, parte das reclamações menciona que clientes teriam sido desencorajados ou constrangidos a desistir da compra após conhecerem o preço. A empresa nega essa versão.
O consumidor é obrigado a levar o produto?
O que diferencia uma venda regular de uma prática considerada abusiva é a transparência das informações prestadas ao consumidor. O Código de Defesa do Consumidor determina que o comprador tenha acesso a informações claras, precisas e ostensivas sobre preço, quantidade e características do produto antes da conclusão da compra.
Na avaliação de especialistas em direito do consumidor, quando o cliente não dispõe de elementos mínimos para compreender quanto irá pagar, pode haver violação do dever de informação previsto na legislação.
Isso significa que o problema não está necessariamente no preço do produto, mas na ausência de referências que permitam ao consumidor fazer uma escolha consciente.
Caso o consumidor considere que não recebeu informações suficientes antes da compra, ele pode contestar a cobrança e solicitar o cancelamento da operação. Também não é permitido constranger, intimidar ou pressionar o cliente para concluir a aquisição.
Se houver recusa do estabelecimento, a orientação é registrar provas, como fotografias da tabela de preços, do produto e do comprovante da cobrança, além de procurar os órgãos de defesa do consumidor.
Dependendo do caso, ainda é possível buscar reparação na Justiça por eventuais prejuízos materiais ou morais.
Após a repercussão do caso, equipes do Decon realizaram uma inspeção no estande durante a Expocrato. Segundo o MPCE, os fiscais verificaram que os doces não possuíam referências de tamanho ou peso que permitissem ao consumidor estimar previamente quanto pagaria pela porção escolhida. O órgão também apontou que as informações sobre a comercialização não estavam apresentadas de forma suficientemente clara.
Como resultado da fiscalização, a barraca foi orientada a adequar a exposição dos produtos e das informações ao consumidor. Caso as determinações não sejam cumpridas, o estabelecimento poderá sofrer novas sanções administrativas, incluindo eventual interdição.
O que diz a doceria?
A Doceria Deleites afirma que não aplicou qualquer golpe durante a feira. Em manifestação divulgada nas redes sociais, um representante explicou que cada 100 gramas custam R$ 19,90 e que o consumidor escolhe livremente o tamanho da fatia desejada.
Segundo a empresa, não seria possível cortar exatamente a quantidade solicitada em barras de grande porte e, após o corte, o produto não pode retornar à venda por orientação sanitária. A justificativa, no entanto, não encerrou a discussão. Nas redes sociais, consumidores continuaram questionando a ausência de uma referência visual do peso das porções e relataram experiências negativas durante o atendimento.
A tentativa da Doceria Deleites de explicar o modelo de venda adotado na Expocrato 2026 não encerrou a polêmica. Pelo contrário: a publicação da nota de esclarecimento provocou uma nova onda de críticas nas redes sociais, onde centenas de consumidores contestaram as justificativas apresentadas pela empresa e relataram experiências semelhantes durante a compra.
Um dos comentários de maior repercussão foi publicado por uma mulher que afirmou ter sido proprietária de um comércio especializado em produtos vendidos por peso. Segundo ela, a prática permite que o vendedor tenha uma estimativa visual da quantidade comercializada. “Eu fui dona de um estabelecimento que vendia produtos naturais por peso, com mais de mil itens diferentes. A prática faz com que você tenha noção do que representam 100 gramas. O problema é deixar essa responsabilidade para o cliente e depois constrangê-lo a levar um produto que ele não sabia quanto pesava.”
Outro internauta criticou o tom da manifestação da empresa, afirmando que faltou reconhecer os transtornos enfrentados pelos consumidores. “Resumindo: ele não veio pedir desculpas. Veio culpar as pessoas por não saberem quanto representam 100 gramas. Quando a barraca estiver vazia, não adianta reclamar. Basta olhar a quantidade de clientes insatisfeitos.”