Terras raras do Brasil: por que os EUA estão de olho e quais os riscos para o país

Saiba o que são Terras Raras e onde ficam

As terras raras estão no centro de uma disputa internacional que envolve tecnologia, mineração, segurança nacional e influência política. O Brasil, que possui a segunda maior reserva mundial desses elementos, atrás apenas da China, entrou no radar de empresas e governos interessados em garantir o acesso a matérias-primas essenciais para a indústria moderna. O assunto voltou ao debate nesta sexta-feira (16), com o lançamento de um episódio da série jornalística Revelando, apresentado pelo ator Wagner Moura, que investiga os interesses dos Estados Unidos nos recursos minerais brasileiros.

O episódio, intitulado Pátria Submissa, aborda a disputa entre Washington e Pequim pelo controle da cadeia de fornecimento desses materiais e levanta questionamentos sobre a soberania nacional. A discussão também envolve os riscos ambientais da mineração e a possibilidade de o Brasil exportar recursos naturais sem desenvolver tecnologia suficiente para produzir, dentro do próprio território, os componentes de maior valor agregado.

O que são terras raras e para que servem?

Terras raras são um grupo de 17 elementos químicos metálicos, formado por 15 elementos da série dos lantanídeos, além do escândio e do ítrio. Apesar do nome, eles não são necessariamente escassos na natureza. O desafio está em encontrar concentrações economicamente viáveis e separar os elementos dos minerais em que aparecem, um processo que exige tecnologia e investimentos.

Esses materiais são utilizados na fabricação de smartphones, computadores, televisores, equipamentos médicos, motores elétricos, turbinas eólicas e sistemas de defesa. Também são relevantes para a produção de componentes empregados em satélites, aeronaves e equipamentos de alta precisão.

O európio, por exemplo, tem aplicações em materiais emissores de luz, enquanto o neodímio e o praseodímio são utilizados na fabricação de ímãs permanentes de alto desempenho. Esses componentes ajudam a reduzir o tamanho e o peso de motores e equipamentos, mantendo elevada eficiência.

Por causa dessas aplicações, as terras raras ganharam importância na transição energética e na indústria de alta tecnologia. Quem controla a extração, o processamento e a fabricação dos produtos derivados desses elementos pode exercer influência sobre cadeias produtivas inteiras.

Segundo dados compilados pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos e divulgados pela Agência Nacional de Mineração (ANM), o Brasil tinha aproximadamente 11,4 milhões de toneladas de reservas de terras raras em 2024, ante 44 milhões de toneladas da China. A posição brasileira contrasta com a produção ainda pequena e com a necessidade de ampliar a capacidade nacional de processamento.

Onde ficam as terras raras no Brasil?

As ocorrências e reservas brasileiras de Terras Raras estão distribuídas por diferentes regiões, com destaque para Minas Gerais e Goiás. Também há depósitos e ocorrências identificados em São Paulo, Amazonas, Rio de Janeiro e Rondônia, entre outros estados.

Em Goiás, o município de Minaçu abriga a operação da Serra Verde, referência na produção comercial de terras raras no país. A região possui depósitos de argilas iônicas, um tipo de formação geológica que pode facilitar a extração de determinados elementos.

Minas Gerais reúne áreas de interesse mineral em municípios como Araxá, Poços de Caldas, Tapira e Caldas. Em São Paulo, há ocorrências associadas a regiões como Jacupiranga e Itapirapuã. No Amazonas, destaca-se a área de Pitinga, enquanto o Rio de Janeiro apresenta depósitos associados a minerais pesados em São Francisco de Itabapoana. Rondônia também possui ocorrências minerais relevantes.

A localização de um depósito, porém, não significa que a extração seja economicamente viável ou que a área esteja em operação. Cada projeto depende de estudos geológicos, licenciamento ambiental, infraestrutura e avaliação dos custos de produção.

Dados divulgados pela ANM em 14 de outubro de 2026 mostram que o Brasil produziu 326 toneladas de concentrado de óxidos de terras raras em 2025. No mesmo período, exportou US$ 14,9 milhões em concentrado e importou US$ 30,6 milhões em produtos da indústria de transformação mineral, incluindo óxidos e ímãs.

A diferença evidencia um dos desafios do setor: transformar o potencial geológico brasileiro em uma cadeia industrial capaz de gerar mais renda, empregos qualificados e tecnologia no país.

Quais são os perigos da exploração de terras raras para o Brasil?

A mineração pode abrir oportunidades econômicas, mas também apresenta riscos ambientais que precisam ser avaliados antes da implantação dos projetos. A extração e o processamento de terras raras podem exigir o uso de substâncias químicas, gerar rejeitos e consumir água e energia.

Dependendo das características geológicas do depósito e da técnica utilizada, existe a possibilidade de contaminação do solo e dos recursos hídricos por resíduos da atividade mineral. A movimentação de grandes volumes de terra também pode alterar paisagens, afetar habitats e pressionar comunidades que dependem dos recursos naturais da região.

Outro ponto de atenção é a presença eventual de elementos radioativos associados a determinados minérios, como tório e urânio. Isso não significa que toda mineração de terras raras produza rejeitos radioativos em níveis perigosos. A composição de cada depósito precisa ser analisada, e os riscos devem ser tratados conforme os resultados técnicos e as exigências regulatórias.

A fiscalização, o tratamento de rejeitos, o monitoramento da água e do solo e a transparência no licenciamento são medidas fundamentais para reduzir os impactos.

Há também um risco econômico. Se o país limitar sua participação à extração e à exportação de concentrados, poderá deixar de capturar uma parcela relevante do valor gerado pelas etapas seguintes, como separação dos elementos, refino, produção de metais e fabricação de ímãs permanentes.

Para evitar esse cenário, o Brasil precisa combinar investimento privado com pesquisa científica, formação de profissionais, regras ambientais rigorosas e políticas industriais de longo prazo.

O que Wagner Moura denuncia sobre o interesse dos Estados Unidos?

O tema ganhou repercussão com o episódio Pátria Submissa, da série Revelando, apresentado por Wagner Moura e publicado nesta sexta-feira (16). A produção discute a relação entre a disputa internacional por minerais estratégicos e a política brasileira, com entrevista do general Santos Cruz, ex-ministro do governo Jair Bolsonaro.

Na apresentação do episódio, Moura afirma que os Estados Unidos buscam ampliar o acesso a recursos minerais de outros países em meio à rivalidade comercial e tecnológica com a China. A produção também questiona a relação entre Donald Trump, integrantes da família Bolsonaro e os interesses norte-americanos sobre as reservas brasileiras.

Um dos pontos levantados é a dependência dos Estados Unidos em relação ao fornecimento chinês de terras raras. Como a China consolidou uma posição dominante no processamento desses elementos, o acesso a fornecedores alternativos passou a ter importância estratégica para Washington.

A disputa, portanto, não se resume à compra de minério. Envolve também o controle de tecnologias, a segurança das cadeias de abastecimento e a influência sobre países que possuem grandes reservas.

O episódio apresenta a hipótese de que pressões econômicas e alianças políticas possam favorecer interesses estrangeiros na exploração de recursos naturais brasileiros. Essa interpretação, contudo, deve ser atribuída aos participantes da produção: a existência de interesse estratégico dos Estados Unidos nas terras raras não comprova, por si só, uma operação para controlar as reservas brasileiras ou interferir nas eleições do país.

O desafio para o Brasil é aproveitar a demanda internacional sem abrir mão de sua capacidade de decidir como os recursos serão explorados. Isso exige contratos transparentes, fiscalização, proteção ambiental e investimentos que permitam processar os minerais e desenvolver tecnologia nacional.

Com reservas expressivas e produção ainda limitada, o país tem a oportunidade de ocupar um espaço maior na indústria global. O resultado dependerá não apenas de quem extrairá as terras raras, mas também de onde serão realizados o processamento, a pesquisa e a fabricação dos produtos que concentram o maior valor econômico.

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