Vendedor das Casas Bahia é demitido após 21 anos com fechamento de lojas: ‘criei meus filhos’
Rede do varejo deve fechar 298 lojas em 2026
Um vendedor das Casas Bahia foi demitido após 21 anos de trabalho na empresa depois que a unidade onde atuava, em Ponta Porã, em Mato Grosso do Sul, encerrou as atividades. O fechamento faz parte de uma nova rodada de redução da rede, que atingiu 298 lojas em todo o país e levou ao desligamento de cerca de 1,9 mil funcionários, conforme apurou o Valor Econômico.
A notícia teve um peso diferente para o funcionário porque a Casas Bahia acompanhou boa parte de sua vida profissional e familiar. Em um desabafo após ser informado sobre o encerramento da loja, ele relembrou os anos dedicados à empresa e afirmou que o emprego foi responsável pelo sustento da família.
“Dia difícil da nossa vida. Ficamos sabendo em reunião pelo gestor que a Casas Bahia não vai mais operar a cidade de Ponta Porã. Está fechando as portas. Pensa numa notícia triste. Foram 21 anos de Casas Bahia. Receber essa notícia não é fácil”, afirmou.
Em outro trecho do relato, o vendedor resumiu o significado daquele trabalho ao longo das duas décadas. “Foi daqui que tirei meu sustento, criei meus filhos, formei meus filhos”, disse.
A unidade de Ponta Porã estava presente na cidade havia mais de 15 anos e fazia parte do comércio local. O fechamento ocorreu na sexta-feira (14), mesmo dia em que outros funcionários da rede em Mato Grosso do Sul também foram afetados pela redução das operações.
Em Dourados, duas lojas localizadas na Avenida Marcelino Pires encerraram as atividades. Também foram divulgados fechamentos de unidades em Nova Andradina e Campo Grande.
Fechamento de lojas das Casas Bahia
O movimento é uma das maiores reduções concentradas da estrutura da Casas Bahia nos últimos anos. A companhia já vinha diminuindo o número de lojas, mas desta vez o corte ganhou proporções maiores e veio acompanhado de milhares de demissões. A redução da rede ocorre em meio à situação financeira delicada da varejista. A Casas Bahia registrou prejuízo de quase R$ 1,1 bilhão no primeiro trimestre de 2026. O resultado foi mais de duas vezes superior à perda registrada no mesmo período do ano anterior.
Em 2025, o prejuízo líquido consolidado da companhia ficou próximo de R$ 3 bilhões. A empresa tenta reverter esse cenário desde 2023, quando iniciou uma sequência de medidas para reorganizar a operação e reduzir o peso das dívidas.
Uma das principais medidas ocorreu em 2024, com uma recuperação extrajudicial envolvendo aproximadamente R$ 4 bilhões em obrigações. No ano passado, a companhia também realizou operações para converter parte dos títulos em participação acionária e alongar outros compromissos financeiros.
Mesmo com a redução da dívida líquida registrada no primeiro trimestre, a empresa continua enfrentando pressão das despesas financeiras. A necessidade de cortar custos ajuda a explicar a decisão de reduzir a quantidade de lojas físicas.
Os números de vendas também apontam para uma mudança no comportamento da operação. No primeiro trimestre, as vendas digitais de produtos próprios cresceram 26%, enquanto as lojas físicas tiveram retração de 1,8%. A receita bruta consolidada avançou 6,4% na comparação anual e chegou a R$ 8,8 bilhões.
A estratégia, portanto, é concentrar cada vez mais esforços nos canais considerados mais eficientes e reduzir uma estrutura física que se tornou mais cara de manter. O problema é que, por trás dessa mudança, estão milhares de trabalhadores afetados pelos cortes.
Antes da nova rodada de encerramentos, o grupo já havia reduzido sua rede. Ao fim de 2025, eram 1.042 unidades, contra 1.064 em 2024 e 1.078 em 2023. Nos 12 meses encerrados em março, outros 26 estabelecimentos haviam sido fechados.
A Casas Bahia também adiou a divulgação dos resultados do segundo trimestre. O balanço, inicialmente previsto para quarta-feira (12), foi remarcado para sexta-feira (14), enquanto a teleconferência com analistas ficou marcada para segunda-feira (17).
Para o vendedor de Ponta Porã, porém, toda essa reestruturação aparece sob uma perspectiva muito mais pessoal. O fechamento de uma unidade que fazia parte da cidade há mais de uma década significou também o fim de um emprego que durou 21 anos.
Enquanto a companhia reduz sua presença física para tentar recuperar a saúde financeira, o trabalhador encerra um dos capítulos mais longos de sua vida profissional. A loja fechou as portas, mas deixou para trás uma história que, para ele, começou muito antes dos números da atual reestruturação.
Procurada para comentar os fechamentos e as demissões, a Casas Bahia não havia se manifestado até a publicação das informações. O espaço permanece aberto para posicionamento da empresa.