Pacífico supera 30°C pela primeira vez e acende alerta para um El Niño extremo

A temperatura da superfície do mar em uma região chave do El Niño ultrapassou 86 graus Fahrenheit pela primeira vez na história, indicando que a intensidade e a localização de alguns eventos El Niño estão se transformando.

A temperatura da superfície do Oceano Pacífico equatorial ultrapassou os 30°C em uma região usada por cientistas para acompanhar o El Niño. O registro, identificado em dados preliminares de 5 de outubro, supera as marcas anteriores conhecidas para a área e levanta novas preocupações sobre a força do fenômeno climático, que está em desenvolvimento e pode ganhar intensidade nas próximas semanas.

A medição foi feita na região Niño 3.4, localizada no Pacífico tropical central, entre as latitudes de 5° norte e 5° sul e as longitudes de 120° e 170° oeste. Embora temperaturas acima de 30°C sejam comuns em partes mais quentes do oceano, como nas proximidades da Austrália, alcançar esse patamar na Niño 3.4 é algo excepcional.

O dado ainda precisa ser confirmado pelos registros observacionais, mas especialistas ouvidos pela publicação Live Science consideram a medição um possível marco climático. A preocupação não se limita ao recorde em si: temperaturas tão elevadas podem estar associadas a um El Niño muito intenso, com efeitos sobre os regimes de chuva, a ocorrência de secas e a frequência de eventos extremos em diferentes partes do planeta.

Por que a temperatura de 30°C no Pacífico chama a atenção?

A região Niño 3.4 funciona como uma espécie de termômetro do El Niño. É nela que pesquisadores acompanham as mudanças na temperatura da superfície do mar para avaliar a evolução e a intensidade do fenômeno.

Em condições habituais, essa parte do oceano apresenta temperaturas inferiores às encontradas na chamada piscina quente do Pacífico Ocidental, uma extensa área de águas aquecidas próxima à região da Indonésia e ao nordeste da Austrália. Por isso, a possibilidade de a Niño 3.4 ter ultrapassado os 30°C representa uma situação fora do padrão histórico.

Jin-Yi Yu, professor de ciências do sistema terrestre da Universidade da Califórnia em Irvine, nos Estados Unidos, afirmou à Live Science que a temperatura indica um aquecimento excepcional para essa parte do Pacífico tropical. Ele ressalvou, porém, que a marca precisa ser confirmada nos conjuntos de dados observacionais para que seja reconhecida como recorde.

Timothy Osborn, professor de climatologia da Universidade de East Anglia, no Reino Unido, também classificou a medição como expressiva. Mat Collins, professor de sistemas climáticos da Universidade de Exeter, concordou que o registro merece atenção.

A temperatura absoluta, entretanto, não é o único critério usado pelos cientistas para medir a força do El Niño. O principal indicador é a diferença entre a temperatura observada na região Niño 3.4 e a média histórica, conhecida como anomalia térmica. Os pesquisadores também podem comparar o aquecimento local com o restante dos trópicos, uma forma de considerar o aumento generalizado das temperaturas dos oceanos provocado pelas mudanças climáticas.

El Niño pode se tornar um dos mais fortes já registrados

Em 6 de outubro, a anomalia de temperatura na região Niño 3.4 estava aproximadamente 3,34°C acima da média, segundo os dados citados pelos pesquisadores. Para comparação, um El Niño típico costuma apresentar um aquecimento máximo de cerca de 1°C a 2°C acima da média nessa região.

A diferença ajuda a dimensionar a situação. O aquecimento observado está muito acima do intervalo comum e indica que o fenômeno pode alcançar uma intensidade extraordinária.

Osborn afirmou à Live Science que o El Niño em curso já se aproxima dos eventos mais fortes registrados em determinados indicadores. Como as previsões apontam para uma intensificação adicional, alguns recordes históricos podem ser superados. A avaliação, contudo, depende do indicador utilizado e da confirmação dos dados.

Quando o aquecimento do Pacífico central é excepcionalmente intenso, o fenômeno pode ser chamado de super El Niño. A expressão não representa uma categoria oficial única, com limites aceitos por todos os pesquisadores, mas é usada para descrever episódios de intensidade incomum.

Jin-Yi Yu considera que os valores atuais apontam para a possibilidade de um evento dessa magnitude. Projeções mencionadas pelos especialistas indicam que a anomalia de temperatura na região Niño 3.4 pode chegar a 4°C acima da média em novembro.

A expectativa é que as águas continuem aquecidas nas próximas semanas, com o fenômeno atingindo seu pico em novembro ou dezembro. Depois disso, as temperaturas devem começar a cair ao longo de 2027, embora a evolução dependa das condições observadas no oceano e na atmosfera.

Como o El Niño altera o clima no mundo?

O El Niño é um fenômeno climático natural que ocorre quando as águas superficiais do Pacífico equatorial ficam mais quentes do que o habitual e o sistema de circulação entre o oceano e a atmosfera sofre alterações.

Durante o processo, águas aquecidas do oeste do Pacífico se deslocam em direção ao centro e ao leste do oceano, próximo à costa da América do Sul. Essa mudança interfere nos ventos e na distribuição de calor e umidade na atmosfera, modificando os padrões de chuva em diversas regiões.

Os efeitos variam conforme a localização e a época do ano. Em alguns lugares, o El Niño favorece chuvas intensas, enchentes e deslizamentos. Em outros, aumenta o risco de estiagens prolongadas, falta de água e incêndios florestais.

Partes do leste da África, do sul da China, do sul dos Estados Unidos e da costa equatorial do Pacífico sul-americano podem registrar chuvas mais intensas em determinadas fases do fenômeno. Já áreas como Indonésia, Filipinas, sul da África e norte da América do Sul podem enfrentar condições mais secas.

Um El Niño muito forte pode ampliar essas alterações porque modifica de maneira mais intensa a circulação atmosférica responsável pela distribuição de calor e precipitação. Isso não significa, porém, que todas as regiões sofrerão os mesmos efeitos ou que os impactos ocorrerão simultaneamente.

A consequência mais relevante é o potencial de agravar situações que já estão em andamento. Uma região que enfrenta uma sequência de anos secos, por exemplo, pode ficar ainda mais vulnerável se o El Niño favorecer a redução das chuvas. Da mesma forma, áreas que já registram precipitações acima do normal podem enfrentar inundações mais graves.

Aquecimento global pode intensificar os efeitos do fenômeno

O El Niño é um processo natural e não deve ser confundido com o aquecimento global. Os dois fenômenos, no entanto, podem atuar ao mesmo tempo.

O aquecimento causado pelas atividades humanas elevou a temperatura média dos oceanos, criando um cenário diferente daquele observado em décadas anteriores. Esse aumento de temperatura pode contribuir para que episódios de El Niño ocorram sobre uma base oceânica mais quente, ampliando os riscos associados a determinados eventos extremos.

Isso não significa que o aquecimento global, sozinho, explique o recorde registrado na região Niño 3.4 ou que todos os El Niños futuros terão a mesma intensidade. A dinâmica do fenômeno também depende da interação entre os ventos, as correntes oceânicas e a atmosfera.

Para os pesquisadores, o desafio é entender como essas relações estão mudando à medida que o planeta aquece. O comportamento do El Niño atual pode oferecer pistas sobre os riscos climáticos das próximas décadas, mas um único episódio não é suficiente para estabelecer um novo padrão.

O recorde indica que todos os El Niños serão mais extremos?

Não necessariamente. Os fenômenos El Niño apresentam grande variação de intensidade, duração e localização do aquecimento. Por isso, mesmo que a média dos eventos futuros se torne mais extrema em um planeta mais quente, não é possível afirmar que todos atingirão níveis comparáveis aos do episódio atual.

Osborn avalia que a maior preocupação está na combinação entre o El Niño e as mudanças climáticas que já afetam diferentes regiões. Locais que estão ficando mais secos podem enfrentar crises hídricas mais graves durante episódios que favoreçam a redução das chuvas. Em áreas mais úmidas, o risco pode ser o agravamento de temporais e enchentes.

Yu, por sua vez, chama a atenção para possíveis mudanças na própria configuração do fenômeno. Segundo o pesquisador, estudos conduzidos por seu grupo e colaboradores identificaram alterações não apenas na intensidade do El Niño, mas também nas regiões do Pacífico onde o aquecimento se concentra e no tempo de duração dos episódios.

A pesquisa diferencia dois padrões principais: o El Niño do Pacífico Oriental, marcado pelo aquecimento mais intenso próximo à costa da América do Sul, e o El Niño do Pacífico Central, no qual o aumento das temperaturas se concentra mais a oeste. De acordo com Yu, os episódios com aquecimento no Pacífico central ganharam maior destaque nas últimas décadas, enquanto mudanças na duração dos eventos também vêm sendo investigadas.

Uma das hipóteses é que o aquecimento global esteja fortalecendo as interações entre o oceano e a atmosfera no Pacífico subtropical. Combinadas aos processos que ocorrem na região equatorial, essas mudanças poderiam favorecer episódios de intensidade excepcional.

A possibilidade de El Niños extremos mais frequentes, portanto, merece atenção científica. Ainda assim, os especialistas diferenciam essa hipótese da afirmação de que todos os eventos serão progressivamente mais fortes.

Por enquanto, o principal sinal de alerta é a combinação de temperaturas oceânicas extraordinárias com a expectativa de intensificação do fenômeno. A confirmação do recorde e o acompanhamento das próximas semanas serão essenciais para compreender a dimensão do episódio e seus possíveis efeitos sobre o clima global.

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