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São Paulo - O Brasil poderia reduzir as perdas no sistema elétrico em até 30% com a instalação de redes inteligentes de transmissão de energia, além de facilitar o monitoramento do consumo de eletricidade tanto para o consumidor como para as agências e empresas.

Apesar dos desafios colocados por questões regulatórias para que o modelo seja estendido a toda a população, as iniciativas nacionais têm um futuro promissor, avaliam especialistas.

A instalação de medidores elétricos inteligentes e de tecnologias para a comunicação em tempo real entre cliente, relógio e centrais de controle - conhecido no mundo como smart grid - começa a dar os primeiros passos no País. Ao menos nove distribuidoras de energia já desenvolvem projetos em cidades brasileiras para testar o sistema e 11 fornecedores de equipamentos dão início aos estudos de viabilidade para a implantação de linhas de produção para atender a esse novo mercado.

"O uso do smart grid assegura desde a redução dos custos da energia elétrica até a apropriação de informações da rede pelos consumidores residenciais, industriais e comerciais, que poderão saber com mais precisão o quanto usam e pagam pela eletricidade", afirma o presidente da consultoria Ideia Sustentável, Ricardo Voltolini. "Isso pode, por exemplo, levar à extinção do famoso 'gato', já que as tecnologias sinalizam imediatamente o local do roubo da energia." Segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), as fraudes geram, no País, prejuízo anual de quase R$ 15 bilhões às empresas.

O executivo lamenta, no entanto, que o desenvolvimento do modelo esteja em um estágio tão preliminar no Brasil. Países como os Estados Unidos trabalham para instalar o smart grid em 91% de sua base de consumidores de energia elétrica, nos próximos sete anos. Já os brasileiros esperam ter 38 milhões de relógios inteligentes até 2020, o que corresponderia por 58% das 65,2 milhões de residências registradas em levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

De acordo com mapeamento da Agência Brasileira de Desenvolvimento da Indústria (ABDI), os investimentos nacionais em projetos de redes inteligentes somara R$ 1,6 bilhão até o ano passado. Contudo, para a diretora de desenvolvimento tecnológico e inovação da entidade, Maria Luisa Campos Machado Leal, ainda existem algumas barreiras ao avanço desse mercado, devido, sobretudo, à falta de investimentos em tecnologias da informação, que podem aperfeiçoar as medições, a automação e a interação entre concessionárias e clientes.

"Por isso a ABDI está se reunindo continuamente com as diversas organizações responsáveis pelo setor energético nacional e vai propor uma política industrial para o desenvolvimento desse mercado", informa a executiva. Ela conta que a agência, ligada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) tem se encontrado com o Ministério de Minas e Energia (MME) para debater a competitividade dos fornecedores dos segmentos elétrico e eletrônico, e com a Aneel, o Operador do Sistema Nacional (ONS) e a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) para discutir os problemas regulatórios.

"É um modelo que depende da aprovação de diversas pequenas medidas, para normatizar, por exemplo, as qualificações mínimas dos medidores, as informações que são transmitidas, a possibilidade de mensuração da venda de energia por autoprodutores e até mesmo a segurança dos dados", explica Maria Luisa. Um dos principais assuntos em pauta agora, conta ela, é a definição do que a Aneel permitirá em termos de cobrança do serviço de monitoração e disponibilização dos dados pelas empresas.

O tema ganhou urgência nos órgãos reguladores porque as redes inteligentes serão imprescindíveis na nova configuração da matriz energética, avalia Voltolini, da Ideia Sustentável. "No momento em que a rede tiver que lidar com cargas transferíveis, como os carros elétricos, ou com empresas e residências exportadoras de eletricidade, a infraestrutura das instalações precisará estar adequada. Apenas um sistema inteligente será capaz de suportar a diversidade de usos."

Projetos-piloto

Os estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro, Amazonas, Paraná, Ceará, Pernambuco e São Paulo já possuem projetos para analisar a implementação de redes inteligentes. No Rio, o Museu Light da Energia montou ainda um protótipo de casa inteligente integrada ao smart grid.

Em Barueri, no interior de São Paulo, a AES Eletropaulo investiu R$ 75 milhões na implantação de um sistema elétrico inteligente para permitir que o cliente visualize em tempo real, por meio do site da empresa, seu consumo de energia elétrica, além de facilitar a identificação de falhas na rede e possíveis ligações ilícitas ou adulterações de relógios medidores. De acordo com a diretora de gestão da receita da Eletropaulo, Maria Tereza Vellano, o modelo pode reduzir as perdas e ineficiências da rede em mais de 30%.

"Teremos ganhos expressivos na qualidade de atendimento ao consumidor, que será atendido muito mais rápido. Com esse equipamento nós saberemos antecipadamente de interrupções no fornecimento e poderemos enviar mensagens no celular para avisá-lo", exemplifica a executiva. "Além, é claro, de podermos adotar medidas com antecedência para isolar o problema e resolvê-lo."

Ela destaca que a facilidade de atendimento ajuda a reduzir os custos operacionais da empresa e que as redes de tecnologias de comunicação instaladas podem servir, por exemplo, na prestação de serviços a outros agentes fornecedores de serviços públicos, como gás e água e iluminação. No entanto, segundo Maria, ainda falta avaliar a viabilidade do retorno sobre o capital investido no projeto. "Por isso a expansão para toda a rede não é algo que deve acontecer no curtíssimo prazo. Faltam estudos do ponto de vista técnico, dos processos da empresa, de preparação dos funcionários para se adequarem às necessidades do modelo, tudo tem que ser pesquisado."

A companhia já instalou em Barueri os medidores de energia para consumidores de baixa renda e deve estender o benefício para todas as residências da cidade em julho de 2016. "Agora, para uma implementação em larga escala do sistema, nós precisamos ter regulações e políticas públicas mais claras também", afirma a executiva.

Do lado da demanda, os consumidores também parecem preparados e interessados na maior digitalização dos serviços elétricos. Conforme uma pesquisa publicada ontem pela Accenture, mais de 70% dos consumidores brasileiros vão utilizar canais digitais para interagir com suas concessionárias de energia nos próximos dois anos. Cerca de 82% do entrevistados acessariam informações de sua conta por meio de canais digitais, 81% receberiam informações sobre uso de energia, 81% gerenciariam suas contas por esse meio, 77% resolveriam questões relacionadas às suas contas, 76% aceitariam conselhos ou dicas para otimizar o uso de energia e 73% receberiam ou forneceriam informações sobre interrupções.