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O presidente Jair Bolsonaro já tropeça nas primeiras pedras em seu governo, com disputas internas e confusões políticas em apenas 10 dias de seu mandado. O que levanta preocupações entre investidores sobre sua capacidade de promover as necessárias reformas fiscais.

Ontem o presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações (Apex) abriu a primeira grande crise no governo ao recusar a demissão repentina. Alex Carreiro criou um mal-estar entre o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e o Palácio do Planalto. Os relatos feitos à Reuters por pessoas que acompanham a crise apontam para um impasse criado pela decisão de recusar a demissão. O presidente da Apex teve sua demissão anunciada por Araújo no Twitter, que ainda indicou o embaixador Mauro Vilalba para substituí-lo.

Carreiro chegou a ir ao Planalto na manhã desta quinta-feira tentar um encontro com o presidente Jair Bolsonaro, mas não foi recebido. O presidente da Apex pretendia apelar por sua permanência.

Segundo relatos ouvidos pela Reuters, Alex Carreiro foi trabalhar normalmente e teria dito a pessoas que estiveram com ele que só poderia ser demitido por Bolsonaro. Na verdade, fontes ouvidas pela Reuters afirmam que o chanceler, como presidente do Conselho da Apex, poderia sim demitir Carrreiro, apesar de a demissão ter que ser assinada pelo presidente.

No Planalto, o desconforto seria causado pelo fato de Araújo não ter avisado previamente Bolsonaro de que iria demitir Carreiro. O presidente da Apex, que foi assessor do PSL na Câmara, teria sido uma indicação dos filhos de Bolsonaro. No Itamaraty, a reação de Carreiro causou apreensão no gabinete. De acordo com uma das fontes ouvidas, havia o temor de que o próprio Araújo perdesse o cargo no embate com o presidente da Apex por estar sendo responsabilizado por mais um bate-cabeça no governo. Até o fechamento deste jornal, no entanto, a maior probabilidade é que Carreiro não seja reconduzido. Oficialmente, o Planalto manteve o silêncio. Procurado, não respondeu à Reuters.

O estopim da crise teria sido a decisão de Carreiro de demitir 17 pessoas em sua chegada e estar planejando o afastamento de mais 19, inclusive funcionários com mais de 10 anos de casa. As reclamações chegaram aos gabinetes do Palácio do Planalto e Araújo teria sido cobrado pela crise. Segundo uma fonte, a empresária Letícia Castellari, indicada para a diretoria de Negócios da Agência, teve uma briga pública com Carreiro ao assumir o cargo e descobrir que boa parte dos servidores da sua diretoria tinha sido demitida.

Os comentários de Bolsonaro no Twitter e até em entrevistas, contradizendo seus principais assessores, também servem de alerta para investidores que esperam um governo focado na rápida reforma da Previdência para melhorar as finanças. Na sexta-feira, por exemplo, Bolsonaro disse a jornalistas que havia elevado o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) e que a alíquota máxima do Imposto de Renda seria reduzida. Isso gerou uma rápida negativa do secretário especial da Receita, Marcos Cintra, subordinado ao ministro da Economia, Paulo Guedes. Mais tarde, o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni disse que o presidente havia “se equivocado”.

Vai e volta

As idas e vindas preocupam investidores que haviam elogiado a equipe econômica ortodoxa montada por Guedes, com integrantes da Universidade de Chicago, uma meca do liberalismo econômico. O episódio deixou muitos no modo de esperar para ver, especialmente nos mercados de dívida, disse Fabio Knijnik, da gestora de patrimônio K2 Capital, sediada em São Paulo. Embora muitos investidores domésticos permaneçam com postura compradora, estrangeiros que têm outras opções têm sido mais cautelosos com o Brasil. “É menos provável que eles coloquem dinheiro em um país onde um secretário afirma que o que presidente acabou de falar não faz sentido”

O Ibovespa, principal índice da bolsa brasileira, teve um dos melhores desempenhos do mundo nos últimos seis meses, subindo 25% com a vitória de Bolsonaro. O real e as ações de empresas do país ampliaram a valorização no ano novo, mas os ganhos recuaram ao passo que dúvidas se acumularam.

A confusão sobre a reforma da Previdência, que Knijnik classificou como pedra fundamental da agenda econômica, tem sido especialmente perturbadora para os mercados. Bolsonaro citou idades mínimas para aposentadoria para homens e mulheres inferiores à proposta de Michel Temer, em entrevista, e investidores entenderam isso como um sinal de que ele pode amenizar a proposta para limitar os custos políticos e facilitar aprovação no Congresso. “Existe um desalinhamento entre a equipe econômica e a equipe política. Não há coesão nem coordenação”, diz Leonardo Barreto, da consultoria Factual.