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O Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu ontem manter, por unanimidade, a taxa básica de juros da economia (Selic) em 6,50% ao ano e indicou que este patamar pode permanecer até o final do ano, avaliam especialistas.

“A manutenção da Selic não foi uma surpresa para nós”, ressaltou a economista sênior do banco Santander, Tatiana Pinheiro, após o resultado. “O BC deixou claro que as decisões das próximas reuniões dependerão da evolução do cenário econômico, da ancoragem das expectativas de inflação e do balanço de riscos. Mas que, neste momento, a conjunção desses três fatores preescrevem a manutenção do nível de 6,5%”, enfatizou Tatiana.

Ela avaliou que isso deve ocorrer, principalmente, pelo nível fraco da atividade econômica. A especialista menciona que o comunicado do BC de ontem explicou que o choque inflacionário da greve dos caminhoneiros será de curto prazo, ou seja, impactará o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) nos meses de maio e junho, mas que serão mitigados ao longo do ano devido “pelo grau de ociosidade na economia e pelas expectativas de inflação nas metas”.

Na avaliação de Tatiana, o elevado grau de ociosidade cria espaço para que os juros se mantenham em 6,50% até o primeiro semestre de 2019. Esse fator deve compensar também os efeitos da forte desvalorização do real sobre o dólar. Ela explica que, devido à fraqueza da atividade econômica, o repasse cambial para a inflação brasileira não será significativo, por enquanto.

Um outro fator que poderia alterar a condução da política monetária neste momento seria um desancoragem das expectativas de inflação, cenário que ela não vê ocorrer neste momento. As projeções dos analistas de mercado para o IPCA de 2018 é de 3,88% e, para 2019 de 4,10%, abaixo da meta fixada em 4,5%.

Sobre os riscos externos, Tatiana ressalta que já está precificado que o Federal Reserve (Fed) elevará a taxa de juros dos Estados Unidos (EUA) quatro vezes neste ano e que, por enquanto, não há motivos para reavaliação de cenário no âmbito internacional.

A estrategista da Mongeral Aegon Investimentos, Patrícia Pereira, por sua vez, afirma que a decisão de ontem indica que o BC se balizou, principalmente, no regime de metas de inflação. “Ele [o BC] está seguindo a política monetária pura e simples. Ou seja, viu que o cenário para inflação é positivo e benigno e, com isso, decidiu manter os juros”, comenta Patrícia Pereira.

Ela acrescenta que, entre a reunião de maio do Copom e esta última, pouco tempo se passou para que o BC tivesse uma ideia mais clara sobre real nível de repasse da variação do câmbio para os preços da economia. “Dificilmente, o BC conseguiria avaliar isso entre as duas reuniões”, afirma.

Patrícia lembra que, agora, a autoridade monetária está monitorando os impactos inflacionários para 2019 e que na próxima reunião, o Copom (nos dias 31 de julho e 1 de agosto) terá uma noção maior sobre a trajetória dos preços no ano que vem.

Confiança

O professor de economia da FAAP, Eduardo Mekitarian, reforça que a decisão de manutenção da taxa de juros foi acertada e dentro do esperado. “Com essa decisão, o BC mostra que não abandonou o regime de metas de inflação, que precisa ser mantido para garantir a confiança”, destaca.

Para ele, se a autoridade monetária elevasse a Selic neste momento, seria mais para atender as expectativas do mercado financeiro, do que pensando nos termos da política. “Os indicadores de atividade econômica estão muito fracos e os investimentos estão muito baixo. Elevar a Selic agora prejudicaria muito a confiança dos principais setores da economia [comércio, serviços, indústria], contribuindo para diminuir ainda mais os investimentos”, complementa o professor da FAAP.

Repercussão

A Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan) considerou acertada a decisão do Copom. “Desde a última reunião do colegiado, as projeções para o PIB recuaram em torno de 1 ponto percentual e já apontam para um crescimento abaixo de 2% em 2018. Além disso, a inflação atual e a projetada encontram-se abaixo do centro da meta estabelecida.

Já para a FecomercioSP, o ciclo de quedas da taxa de juros se encerrou em março. “Apesar da inflação acumulada em 12 meses ainda estar baixa, o câmbio está pressionado, e o Banco Central optou por manter a Selic sem correr grandes riscos momentâneos, principalmente por se tratar de um ano eleitoral”, afirmou a entidade, em nota, ontem.

O Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), por sua vez, considerou adequada a decisão do BC. Na avaliação do presidente da instituição, Roque Pellizzaro Junior, a recuperação econômica tem sido menor do que a inicialmente esperada no e a economia segue sem a recuperação sólida no consumo e crédito, o que mantém a inflação baixa.