Publicado em

A ata do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central sinaliza que o ciclo de alta dos juros básicos da economia (Selic) será muito gradual, mas necessário para ancorar as expectativas de inflação para 2019, 2020 e 2021.

Embora o texto da ata do Copom divulgada ontem não mostre quando começará esse aumento dos juros, os especialistas consultados pelo DCI interpretam que a elevação de forma “muito gradual” ocorrerá logo depois do segundo turno das eleições, ou no mais tardar, ao longo de 2019. A próxima reunião está marcada para 31 de outubro.

“Independentemente de quem será eleito, o Banco Central pode começar a subir os juros em 0,25 ponto percentual, altas suaves, para ancorar as expectativas”, diz a professora de economia da Fecap, Juliana Inhasz.

Na avaliação dela, a ata do BC prepara o mercado para o aumento dos juros. “Mas isso não será uma novidade para o mercado”, diz. Segundo a última Pesquisa Focus, os analistas e economistas já projetam a taxa Selic em 8% no final do próximo ano.

O texto da ata afirma literalmente que se torna importante reforçar o seu compromisso de conduzir a política monetária visando manter a trajetória da inflação em linha com as metas.

“Isso requer a flexibilidade para ajustar gradualmente a condução da política monetária quando e se houver necessidade. Essa capacidade de resposta a distintas circunstâncias contribui para a manutenção do ambiente com expectativas ancoradas, o que é fundamental para garantir que a conquista da inflação baixa perdure, mesmo diante de choques adversos”, afirmou o Comitê na ata.

Vale lembrar que nessa ancoragem, o mercado considera as metas de inflação para 2019 (4,25%), 2020 (4%) e 2021 (3,75%). A meta atual para o exercício de 2018 é de 4,5%.

A estrategista de câmbio do Banco Ourinvest, Fernanda Consorte, também interpreta que o Banco Central adotará o gradualismo nas elevações da Selic. “A ata passa uma mensagem mais dura. Quando o comitê ressalta a importância das reformas, no final das contas, se está falando das eleições. Se for eleito um candidato que não tenha a intenção de fazer as reformas, vamos ter que aumentar os juros”, diz.

Ao mesmo tempo, o comitê enfatiza que “a continuidade do processo de reformas e ajustes necessários na economia brasileira é essencial para a manutenção da inflação baixa no médio e longo prazos, para a queda da taxa de juros estrutural e para a recuperação sustentável da economia”, diz o texto da ata do Copom.

Em outras palavras, se o processo de reformas for continuado, o País tem a oportunidade de manter os preços mais controlados, e com uma taxa estrutural de juros menor. “Não estamos na mesma situação que a Argentina. Temos contas externas robustas. Não vamos sofrer nenhum ataque especulativo sobre o real”, argumentou Fernanda Consorte.

Mas ambas as consultadas concordam que a deterioração das economias emergentes, o aumento dos juros nos Estados Unidos, e a guerra comercial do presidente americano Donald Trump com a China são preocupações do BC. “A ajuda do Fundo Monetário Internacional (FMI) para a Argentina pode tirar um pouco da pressão sobre os países emergentes”, afirma Juliana Inhasz.

“As tarifas de Trump em quase a metade dos produtos chineses afeta o comércio mundial, e por consequência, o Brasil”, alerta Consorte.

Questão eleitoral

Para o professor do Labfin da Fundação Instituto de Administração (FIA), Marcos Piellusch, o conteúdo da ata mostra uma preocupação com o cenário eleitoral. “Sem reformas, a deterioração da situação fiscal leva a um aumento das expectativas de inflação. A política monetária depende da política fiscal”, diz o professor.

Na visão dele, o aumento dos juros é esperado para que o BC possa cumprir suas metas. “O regime de metas de inflação é bem sucedido em vários países”, disse Piellusch.

De fato, entre as economias que adotam o modelo com sucesso estão Reino Unido, Canadá, Austrália e Nova Zelândia; além de México, Chile e Peru, na América Latina.