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Dados de atividade do Banco Central (BC) reforçam que a economia brasileira ainda “anda de lado”, ao indicarem uma recuperação muito lenta em todas as cinco regiões do País, avaliam especialistas.

Segundo o Boletim Regional do BC divulgado ontem, as atividades do Sul (+0,5%), o Norte (+2,1) e o Nordeste (+0,3%) apresentaram crescimento no trimestre encerrado em fevereiro de 2018, contra o trimestre terminado em novembro de 2017. O Sudeste, por sua vez, registrou estabilidade, enquanto a economia do Centro-Oeste (-0,5%) teve queda no período.

“Era de se esperar uma retomada mais consistente do que a que estamos registrando neste momento, tendo em vista a melhora dos principais indicadores macroeconômicos, como os de inflação, que estão mais baixos, assim como os juros menores”, comenta a professora de economia da Fecap, Juliana Inhasz, ressaltando que os problemas fiscais e as indefinições políticas estão minando a confiança das empresas e das famílias brasileiras.

“Ninguém está apostando muito que a atividade terá forte expansão neste ano. Todos estão esperando os próximos movimentos no cenário político [como a definição do próximo presidente] para tomar decisões”, diz Inhasz.

Segundo o relatório do BC, a retração da atividade no Centro-Oeste (CO) refletiu o desempenho ruim da indústria de transformação e da construção civil, os quais, por sua vez, anularam o resultado positivo da agricultura – sobretudo, da safra de soja. A indústria de transformação do CO recuou 2,5%, influenciada pelos desempenhos negativos das indústrias automobilística, biocombustíveis, farmacêutica, alimentícia e de produtos de madeira.

Segundo Inhasz, o alto desemprego e a dificuldade de ganhos significativos na renda são os fatores que contribuíram para o encolhimento da indústria, serviços e comércio no CO, no início do ano. Além disso, ela lembra que o agronegócio, mesmo gerando resultados positivos na produção e nas exportações, já é bastante mecanizado e, por isso, emprega menos gente do que na década de 1990, por exemplo.

Para a professora da Fecap, a desocupação e a falta de um avanço consistente nos rendimentos também explicam a estabilidade na atividade do Sudeste. Apesar do BC destacar no Boletim que o consumo das famílias lidera o processo de retomada, Inhasz afirma que as famílias ainda estão receosas de elevar muito as suas compras, tanto por medo de perderem o emprego, quanto por não terem estabilidade na ocupação, ou até mesmo por não estarem trabalhando.

Fiscal

Já o professor de economia do Mackenzie Alphaville, Francisco de Aguiar, lembra que a crise fiscal do Rio de Janeiro tem impactado os números do Sudeste. “O déficit orçamentário reduz a capacidade do estado de investir no fomento das atividades locais”, diz Aguiar.

Em relação ao crescimento do Sul, o BC afirma que este foi decorrente do avanço do comércio, da indústria e do setor de serviços e, em menor grau, da agricultura, em meio ao início do período de colheita das safras de verão. Esses resultados impactaram favoravelmente o mercado de trabalho formal, que criou 11,8 mil postos, ante extinção de 25,7 mil no mesmo período de 2017.

Para Inhasz, no entanto, a continuidade da expansão ainda dependerá do cenário político e pode ser limitado pelo crescimento menor das outras regiões brasileiras.

Já no Norte, houve aumentos das vendas do comércio ampliado e da produção industrial – sobretudo da indústria de transformação –, com efeitos positivos sobre o emprego formal e a confiança dos agentes econômicos.

A economia do Nordeste, por sua vez, sinaliza recuperação moderada, segundo o BC. “Os indicadores setoriais têm alternado resultados positivos com movimentos de contração”, afirma a autoridade monetária. Por outro lado, o BC espera que a alta da confiança dos empresários e o crescimento da produção agrícola contribuam para a continuidade de expansão da região.