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As empresas terão que se ajustar a uma economia com menor participação do Estado, cenário distinto do que o País viveu até 2014, época em que o setor público teve papel central de impulsionar a atividade por meio de grandes obras, que chegaram a movimentar muitos empregos.

Com a paralisação de projetos públicos, o nível de empregabilidade não tem conseguido reagir. A taxa de desemprego chegou, inclusive, a aumentar no início de 2019. Esta passou de 11,7%, no trimestre móvel encerrado em outubro de 2018, para 12%, no trimestre finalizado em janeiro de 2019.

Os dados foram divulgados ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE). Em números absolutos, são 12,7 milhões de pessoas sem emprego no País, número que está estável em relação ao trimestre de novembro a janeiro de 2018.

O pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV IBRE) e IDados, Bruno Ottoni, descreve esse quadro como “desanimador”. Apesar do aumento da desocupação ser sazonal em janeiro – por conta da destituição das vagas temporárias abertas durante as festas de final de ano –, Ottoni avalia que a recuperação do emprego perdeu ritmo.

“Até meados de 2018, nós verificávamos uma redução da taxa de desemprego nas comparações anuais. Porém, o que temos observado desde então é uma estabilidade”, afirma o professor do FGV IBRE.

O professor de economia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Paulo Dutra, explica que esse quadro reflete um novo momento da nossa economia, na qual o Estado reduzirá cada vez mais a sua participação. “As empresas terão que se readequar à diminuição dos subsídios governamentais e isso pode significar um aumento da taxa desemprego no curto prazo”, destaca Dutra.

Ele menciona as sinalizações dadas pelo presidente do BNDES, Joaquim Levy, que indicam corte de financiamento para as grandes empresas, grupo bastante beneficiado pela instituição nos últimos anos.

“Com a redução dos subsídios, o balanço de receita e despesa das empresas mudam. A receita terá que ser maior do que o gasto. Ou seja, ela terá que cortar custo e ser mais eficiente, o que acaba recaindo sobre a mão de obra. Pode haver mais demissões”, reflete o professor do Mackenzie.

Grandes obras

O economista do Conselho Federal de Economia (Cofecon), Fernando Aquino, também não está otimista com a retomada do emprego, principalmente porque não há políticas de reativação da demanda.

“Uma série de analistas tem dito que a reforma da Previdência Social irá mudar tudo, melhorar a economia. O problema é que nada acontece enquanto isso. O governo precisa ativar a demanda e o emprego com obras públicas, com parcerias público privadas, porque o setor empresarial não está conseguindo cumprir esse papel. Apesar do fiscal estar ruim agora, esse processo geraria receita lá na frente”, diz o economista do Cofecon.

Para Aquino, as empresas não estão conseguindo gerar emprego, porque não há confiança se um investimento feito hoje, gerará lucro no futuro. “A indústria não está recebendo encomenda. O comércio não está vendo os seus clientes voltarem”, diz Aquino. “Austeridade fiscal não vai gerar emprego na economia”, conclui.

Já na opinião de Dutra, a aprovação de uma reforma do sistema de aposentadorias gerará incentivo econômico, colaborando, dessa forma, para uma diminuição do emprego somente no longo prazo. Ou seja, em três, quatro anos.

Subutilização

Outros dados do IBGE revelam que faltou emprego para 27,459 milhões de pessoas no trimestre encerrado em janeiro de 2019. Com isso, a taxa de subutilização da força de trabalho alcançou 24,3% no período, uma estabilidade em relação ao trimestre imediatamente anterior (24,1%), mas alta em relação a iguais meses do ano passado (23,9%).

Essa taxa inclui os desempregados, a subocupação por insuficiência de horas (que trabalham menos horas do que gostariam) e a força de trabalho potencial (pessoas que não buscam emprego, mas estão disponíveis para trabalhar).