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O dólar voltou a flertar com a possibilidade de se fixar acima dos R$ 4 ontem, em meio ao aumento das dúvidas sobre capacidade de articulação política do presidente Jair Bolsonaro para aprovar uma reforma da Previdência robusta e destravar a economia.

Com máxima de R$ 4,0218, atingida pela manhã, e mínima de R$ 3,9872, o dólar à vista fechou em alta de 0,51%, a R$ 3,9967 - maior valor de fechamento desde 1º outubro do ano passado (R$ 4,0299). No mercado futuro o dólar para junho fechou a R$ 4,0085, alta de 0,63%.

A escalada da moeda começou logo na abertura dos negócios. No exterior, dados fracos das economias americana e chinesa avivaram temores de desaceleração da economia global. Por aqui, pesava a sequência de derrotas do governo no Congresso nos últimos dias, coroada pela convocação terça do ministro da Educação, Abraham Weintraub, para sessão na Câmara por uma votação esmagadora (307 votos a 82).

A convocação relâmpago de Weintraub deixou evidente a capacidade dos partidos do Centrão de constranger o Planalto. O constrangimento é tanto que o governo não conseguiu nem emplacar a Medida Provisória que reorganiza dos ministérios. Protestos em todo país contra cortes no Orçamento da Educação aumentaram a sensação de deterioração do capital político do presidente. Dos EUA, Bolsonaro elevou o tom e chamou os manifestantes de “idiotas úteis” e “massa de manobra”.

O desgaste do governo desperta temores de que a tramitação da reforma da Previdência seja mais arrastada e resulte na aprovação de uma versão bem diluída da proposta inicial. E sem a perspectiva de ajuste das contas públicas, as expectativas para o crescimento mínguam. A queda do IBC-Br em março corrobora o quadro de estagnação.

“Existem as questões externas. Mas esse nível do dólar é mais por conta da falta de visibilidade aqui dentro, com essa incapacidade de articulação do governo. Isso acaba alimentando a especulação”, diz Durval Corrêa, sócio-diretor da Via Brasil Serviços.

Na bolsa de valores

A maior percepção de risco político voltou a afetar a confiança do investidor do mercado de ações e o Índice Bovespa teve um pregão inteiro de perdas ontem na contramão do desempenho positivo das bolsas internacionais. As dificuldades do governo no Congresso e as manifestações políticas contra os cortes na educação impuseram cautela aos negócios na bolsa, enquanto o investidor acompanhava com desânimo os sucessivos indicadores que apontam para a fraqueza da economia nacional.

Após ter caído 1,95% pela manhã, o Ibovespa fechou em baixa de 0,51%, aos 91.623,44 pontos. É a menor pontuação desde 3 de janeiro. Os negócios somaram R$ 15,5 bilhões.

"Três assuntos trouxeram um pouco de pessimismo no mercado: a pressão pelas contas do orçamento da Educação, o IBC-Br, que veio um pouco pior do que o esperado, junto com a revisão para baixo do dado de fevereiro, e um pouco de receio pela fala do senador Carlos Bolsonaro”, disse Vitor Miziara, analista da Criteria Investimentos.

Miziara se referia à frase “o que está por vir pode derrubar o capitão”, publicada no Twitter pelo filho do presidente, em meio a análises sobre riscos de uma ação coordenada no Congresso para tentar bloquear a votação da reforma administrativa. /Estadão Conteúdo