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Uma reação mais forte da inflação como resposta à melhoria da atividade pode demorar de dois a três anos. Apesar de uma leve alteração esperada para 2020, o ambiente de preços controlados continuará até que a economia volte a crescer de forma significativa.

Por outro ângulo, em abril, a expectativa mediana dos consumidores brasileiros para a inflação nos 12 meses seguintes subiu 0,2 ponto percentual em relação a março, para 5,3%, acumulando 0,4 ponto percentual nos últimos dois meses. Na comparação com o mesmo período do ano anterior, houve crescimento de 0,3 ponto percentual, segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Apesar do último Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ter registrado 0,75% em março – acima dos 0,43% de fevereiro e o maior índice para o mês desde 2015 – o efeito veio como um reflexo sazonal no aumento dos preços de Alimentos e Bebidas (por conta das chuvas) e de Transportes (relacionado ao preço do petróleo no exterior). Nos 12 meses até março, o índice oficial atingiu 4,58%.

De acordo com o economista da Mongeral Aegon Investimentos Breno Martins, a meta de 4,25% estabelecida para 2019 ainda será superada pelo menos até maio. “A média dos núcleos do IPCA estão rondando os 3,20% e pelo menos até o mês que vem veremos o índice de 12 meses acima da meta. E apesar de não podermos negar a mudança no perfil da inflação que aconteceu desde a gestão Ilan [Goldfajn, ex-presidente do Banco Central], também não podemos negar a participação da ociosidade da economia no controle dos preços”, comenta o economista.

Nessa linha, a atividade econômica do País segue aquém do esperado. Segundo os últimos dados do Monitor do Produto Interno Bruto (PIB), divulgado na semana passada pela FGV, o indicador mostrou uma retração de 0,4% em fevereiro em comparação a janeiro e uma estagnação no trimestre móvel findado no segundo mês deste ano em relação ao trimestre anterior.

“Isso está muito relacionado com o controle da inflação. Tivemos uma recessão nos últimos anos e a expectativa é de que a atividade econômica de 2019 termine, de novo, abaixo de 2%. É uma capacidade ociosa na economia e, mesmo se o PIB voltasse a crescer mais forte neste ano, a inflação, com ressalva dos choques, só teria algum reflexo disso a partir de 2020”, diz o professor da Fundação Instituto de Administração (FIA) Rodolfo Olívio.

“A inflação controlada é positiva porque dá espaço para o BC controlar os juros e a economia voltar a crescer. Mas considerando tudo o que o PIB perdeu, ainda demora de dois a três anos para alcançarmos um avanço na atividade econômica”, acrescenta Olívio.

Percepção atual

“Apesar da desaceleração dos preços de alimentos em abril, compensando o choque recente, há uma pressão de preços de energia e medicamentos que influenciam não apenas a percepção atual do consumidor, mas alteram as perspectivas para os próximos meses. As expectativas seguem em direção contrária, considerando o nível de ociosidade da economia”, completa Viviane Seda Bittencourt, da FGV/IBRE.