Publicado em

O enfraquecimento da economia e a desordem política reduziram a influência do Brasil na América Latina. Referência na região na primeira década do século, o País vê, agora, uma expansão da presença chinesa no continente.

Além da crise brasileira e da chegada de investimentos cada vez maiores do gigante asiático, especialistas dizem que o avanço do liberalismo em parte da região colabora para o redesenho local.

“A abertura comercial dos membros da Aliança do Pacífico [México, Chile, Peru e Colômbia] dá maior autonomia a esses países em relação ao Brasil”, diz Marcos Troyjo, co-diretor do BRICLab, da Columbia University.

O entrevistado também cita a “implosão” do governo PT entre os fatores que reduziram a relevância brasileira. “Nos primeiros anos, o petismo exerceu um certo fascínio na região, mas isso deixou de acontecer há algum tempo.”

Sobre os outros países do continente, Troyjo faz avaliações distintas. Segundo ele, a Bolívia e a Venezuela têm maior dependência do Brasil, enquanto o Paraguai conseguiu atrair investidores de outras nações após realizar mudanças nas legislações tributária e trabalhista.

No caso da Argentina, o especialista destaca que a China está quase tirando do Brasil o topo da lista de parceiros comerciais do país governado por Mauricio Macri.

Um dos dados que ilustram essa trajetória é a diminuição das importações brasileiras de bens latino-americanos.

Entre janeiro e agosto deste ano, US$ 7,278 bilhões foram gastos com produtos argentinos, uma baixa de 38% em relação aos US$ 11,563 bilhões vistos em igual período de 2013, de acordo com o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Mdic).

Antes do início da crise econômica, as importações de México, Chile, Bolívia, Colômbia, Paraguai e Venezuela também atingiram patamares mais elevados que os atuais.

Investimento

Os investimentos diretos do Brasil no continente também caíram nos últimos anos, segundo dados do Banco Central. Enquanto isso, os aportes chineses dispararam. Em 2017, US$ 115 bilhões foram aplicados na América Latina, uma alta de 46% na comparação com o ano anterior, conforme levantamento da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal).

Na opinião dos especialistas, o enfraquecimento das empreiteiras brasileiras, que conduziram grandes obras em países vizinhos antes da Lava-Jato, e a ausência de projetos norte-americanos abriram espaço para a China.

“Hoje, o governo [de Donald] Trump não tem absolutamente nenhum programa relevante para a região, o que dá margem para a entrada de outros países”, afirma Troyjo.

Na opinião dele, o Brasil precisa ter uma postura mais incisiva em relação à crise venezuelana para fortalecer sua presença no continente. “A situação [da Venezuela] está muito complicada, seria bom um posicionamento mais efetivo”, afirma o especialista.

Outra necessidade, segue ele, é a recuperação de um ritmo econômico mais intenso. “O PIB [Produto Interno Bruto] brasileiro equivale à soma dos PIBs de Peru, Chile, Colômbia e México. Todo crescimento da atividade tem um impacto muito positivo para a região.”

À deriva

Entre 2015 e 2017, as análises de diversas instituições, como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI), mencionaram a crise econômica brasileira entre os motivos para os resultados ruins da América Latina.

No começo de 2018, as expectativas melhoraram. O Banco Mundial apontou que a região ganharia força neste ano, com a “continuação da retomada cíclica no Brasil”, cujo PIB deveria crescer 2%.

Entretanto, as projeções mais recentes voltaram a adotar um tom menos animador. Divulgado na semana passada, em relatório, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) reduziu as previsões para o crescimento do Brasil e de vários países da região.

Para a atividade econômica brasileira, foi estimado um avanço de 1,2%, 0,8 ponto percentual abaixo da alta esperada em maio pela OCDE. As expectativas para os PIBs da Argentina (-1,9%) e do México (2,2%) também recuaram no confronto com a avaliação feita no primeiro semestre.

Futuro

Coordenador do curso de economia da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), Paulo Dutra é pouco otimista ao falar sobre as tendências para a economia local.

Sobre o Brasil, o entrevistado diz não acreditar que os candidatos mais bem posicionados nas pesquisas – Fernando Haddad (PT) e Jair Bolsonaro (PSL) – terão condições de aprovar as reformas previdenciária e tributária. “Sem esses ajustes, o investimento não vai voltar tão cedo”, entende.

Na Argentina, o baque cambial deve atrasar a retomada econômica, enquanto a Venezuela pode seguir com graves problemas humanitários.

As exceções, afirma ele, devem ficar com os países da Aliança do Pacífico. “O crescimento de Chile, Peru e Colômbia pode continuar num ritmo acima da média da região, reduzindo a participação relativa do Brasil na economia latino-americana”, avalia.