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São Paulo - Os investimentos diretos dos Estados Unidos no Brasil triplicaram este ano, saltando de US$ 2,627 bilhões no acumulado de janeiro a maio de 2016, para US$ 7,706 bilhões em igual período de 2017, mostra o Banco Central (BC).

Além disso, os aportes realizados até maio já ultrapassam o total de recursos que os EUA alocaram no País em todo o ano passado, uma soma de US$ 6,544 bilhões.

Na avaliação do professor do curso de economia da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP) Eduardo Mekitarian, o nível mais baixo de investimentos em 2016 é explicado pelo movimento de standby (modo de espera) das empresas norte-americanas em meio à desconfiança gerada pelo processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e pelo período pré e pós eleição presidencial nos Estados Unidos.

Segundo ele, logo após a vitória de Donald Trump, os investidores ficaram em alerta para saber quais seriam os seriam os primeiros passos do novo líder após a virada do ano e, por isso, seguraram um pouco os recursos até o início de 2017.

"Havia um discurso protecionista [por parte do Trump] antes das eleições o qual permanece até hoje, é verdade. Porém, este protecionismo ainda não está se traduzindo em números propriamente ditos", comenta Mekitarian.

Protecionismo

Já a professora de economia da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap), Juliana Inhasz, afirma que, apesar de a tendência política de Trump ter tido pouca ressonância até o momento, este risco não está resolvido. "Temos mais três anos e meio pela frente de governo e o fato de que, nos Estados Unidos, existe a possibilidade de reeleição", lembra.

"A eleição de Trump, por si só, já fez o investidor americano ficar mais receoso e considerar a sua economia como uma atividade de risco", afirma Juliana, acrescentando que, diante deste cenário, os norte-americanos, que já têm a sua economia mais voltada para o exterior, passaram a buscar outros mercados, principalmente os emergentes, incluindo o Brasil.

Confiança

A professora da Fecap também pontua que a continuidade e a ampliação dos aportes no setor produtivo brasileiro, tanto dos americanos como de outras origens, sinalizam que os investidores estrangeiros contam com uma recuperação da atividade do País.

"Aparentemente, os agentes externos têm apostado mais no Brasil do que nós mesmos. Os recursos que estão sendo investidos aqui estão vindo mais de fora", assinala Juliana. "Provavelmente, eles enxergam uma possibilidade de crescimento que nós não estamos enxergando", diz. "Além de tudo, o nosso mercado consumidor tem um potencial elevado. Nesse sentido, o Brasil continua sendo um atrativo", complementa Juliana.

Outros dados do BC mostram que o investimento direto no País (IDP) cresceu 52% de janeiro a maio deste ano, para US$ 25,214 bilhões, na relação com igual período de 2016.

Mekitarian da FAAP também avalia que os estrangeiros podem estar mais confiantes na nossa recuperação, principalmente com a "consistência dos indicadores macroeconômicos" do Brasil, como a redução da inflação e os cortes na taxa básica de juros (Selic).

"Apesar das complicações políticas, a trajetória dos indicadores mostra algum alento, como o acréscimo ocorrido nas vendas do varejo e o pequeno avanço na produção industrial. Isso é bom, porque mostra que podemos ter uma política monetária expansionista para reativar a economia do País", diz Mekitarian.

O professor da FAAP menciona ainda que a agenda bilateral de investimentos e de trocas de mercadorias entre o Brasil e os EUA continua "muito bem". Ele cita que alguns dos setores brasileiros que mais estão recebendo mais aportes dos EUA são tecnologia, informática, serviços financeiros, indústria de bebidas, extração de petróleo, comunicação, bens de capital e, por fim, produtos químicos. Mekitarian lembra ainda que as empresas americanas que estão no Brasil já possuem uma presença sólida no País.

A professora da Fecap, por sua vez, acrescenta que o barateamento dos ativos nacionais também continua atraindo estrangeiros. "Ao longo dos dois últimos anos, o Brasil ficou muito barato: a taxa de câmbio subiu muito, o que fez com que o real se depreciasse muito frente às outras moedas", comenta Juliana.

Os números do comércio entre o Brasil e os Estados Unidos também estão positivos. No período que vai de janeiro a junho deste ano, o saldo da balança comercial brasileira com o país parceiro ficou positivo em US$ 417 milhões, contra resultado negativo de US$ 515 milhões registrados em iguais meses do ano passado.

As exportações para os EUA cresceram 22,6% no período, para US$ 13 bilhões, enquanto as importações avançaram 10%, para US$ 12 bilhões, mostram as informações do Ministério do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Mdic).

Entre os principais produtos exportados pelo Brasil aos EUA está o óleos bruto de petróleo, cujas vendas externas expandiram em 65% até junho deste ano, a US$ 1,2 bilhão. Houve também houve exportação de aeronaves (aviões) no valor de US$ 1 bilhão, alta de 15% contra igual período de 2016.