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WASHINGTON (Reuters) - Uma negociadora astuta que comanda o Fundo Monetário Internacional (FMI), mas tem pouca experiência com política monetária, Christine Lagarde vai enfrentar o desafio, como nova presidente do Banco Central Europeu (BCE), de ter que revive a economia da zona do euro com um arsenal relativamente reduzido de políticas.

A diretora-gerente do FMI disse estar "honrada" com a indicação para a presidência do BCE e anunciou que vai renunciar temporariamente a suas responsabilidades no Fundo durante o período de indicação, que pode levar algum tempo mas tende a ser uma formalidade, uma vez que os principais membros -Alemanha, França e Itália- estão em concordância.

Em comunicado divulgado pelo FMI, Lagarde disse que a decisão de se afastar de suas tarefas foi tomada em consulta com o comitê de ética do conselho executivo do Fundo.

Lagarde, que no passado foi a primeira ministra das Finanças da França e está à frente do FMI desde 2011, é uma forte defensora do empoderamento feminino que há tempos tem defendido que mais mulheres na área bancária e de regulação contribuiria para melhorar a estabilidade financeira.

Ela já nomeou a primeira economista-chefe do FMI, Gita Gopinath, e a expectativa é que comece a derrubar também a barreira de gênero no BCE --instituição ainda dominada por homens, ainda que tenha a igualdade como prioridade.

"Christine Lagarde será, com seu 'background' internacional e posição de atual diretora-gerente do FMI, uma presidente perfeita do BCE", disse Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu.

O desafio imediato para Lagarde, 63, será superar suas deficiências em política monetária, em um momento em que a instituição busca novas armas para enfrentar uma potencial queda da atividade após anos de adoção de políticas não-convencionais para estimular inflação e crescimento.

Ex-advogada antitruste do escritório Baker McKenzie, Lagarde se tornou ministra de Finanças da França em 2007 e assumiu o FMI quando um escândalo sexual levou seu antecessor Dominique Strauss-Kahn a renunciar.

Não é usual que grandes bancos centrais sejam comandados por pessoas que não sejam economistas, ainda que o chairman do Fed, Jay Powell, também seja advogado.

"A crítica inicial é óbvia: nenhuma experiência de banco central, sem educação econômica de excelência, mais um político no comando do BCE", disse o economista do ING Carsten Brzeski. "Mas não vamos esquecer o velho ditado: o rei está morto, vida longa ao rei."

Mas Lagarde tem uma perspectiva global que muitos de seus rivais para o posto no BCE não têm. Ela passou a maior parte deste ano alertando sobre o impacto global da guerra comercial iniciada pelos Estados Unidos contra a China e prometeu manter o poder de financiamento do FMI, de cerca de 1 trilhão de dólares, para que a instituição pudesse agir em qualquer cenário.

(Por Balazs Koranyi e David Lawder)