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O presidente Jair Bolsonaro (PSL) chegou ontem de manhã em Buenos Aires, na Argentina, em sua primeira visita oficial ao presidente Mauricio Macri. Um dos temas abordados foi a urgência em fechar o acordo comercial entre Mercosul e a União Europeia (UE).

As negociações entre os dois blocos se iniciaram em 1999. O ministro da Economia, Paulo Guedes, chegou a declarar ontem, antes de se reunir com autoridades argentinas, que o tratado pode ser fechado em quatro ou cinco semanas. Macri, por sua vez, ressaltou que os dois “estão muito perto de um acordo”. Contudo, a cientista política Ariane Roder, professora no Instituto Coppead de Administração da UFRJ, destaca que a postura “vai ou racha” do Guedes pode desembocar em um acordo muito mal feito.

Por outro lado, se as negociações falharem, o governo Bolsonaro terá um bom argumento nas mãos para defender que o Brasil deixe de lado o multilateralismo e as negociações com os outros países, em conjunto com o Mercosul.

Ela reforça que este governo, desde o início, tem pontuado a sua vontade de negociar bilateralmente, fora do Mercosul. A professora comenta ainda que o acordo se arrasta por 20 anos pelo fato de envolver diversos países, dos dois lados, com interesses setoriais muito distintos. “É uma negociação de elevada complexidade”, diz.

Roder cita, por exemplo, que a rede de supermercados Paradiset, da Suécia, anunciou na última quarta-feira um boicote aos produtos brasileiros, depois que Bolsonaro autorizou a liberação do uso de 197 agrotóxicos, dos quais 26 são proibidos pela União Europeia.

Questões ambientais e fitossanitárias sempre são colocadas pelos europeus na pauta das negociações. Além disso, governantes do bloco tentam proteger os setores agrícolas e pecuários europeus, áreas nas quais o Brasil possui mais vantagens competitivas.

O professor de economia da FAAP, Eduardo Mekitarian, afirma, por sua vez, que Guedes está “muito positivo”. Na avaliação dele, as incertezas que, hoje, envolvem o Brexit na Inglaterra também “jogam contra” o acordo entre o Mercosul e os europeus.

Apoio político

Mekitarian analisa ainda que a visita de Bolsonaro ao Macri tem um aspecto mais político. “Me parece que, nas entrelinhas, a visita de Bolsonaro marca um apoio à reeleição de Macri”, diz Mekitarian.

As eleições presidenciais na Argentina ocorrem em outubro deste ano. Macri deve disputar com Alberto Fernández, que tem como vice a ex-presidente, Cristina Kirchner. De fato, a primeira declaração dada por Bolsonaro em Buenos Aires ontem foi, justamente, um apelo para que os argentinos “sejam mais racionais e menos emocionais” ao votarem.

“Eu acho que toda a América do Sul está preocupada que não tenhamos novas Venezuelas na região. Devemos nos preocupar e tomar decisões concretas neste sentido”, declarou Bolsonaro.

Apesar do teor político, os dois países chegaram a assinar uma declaração conjunta de política nuclear e um memorando de entendimento em assuntos de mineração e na área de bioenergia e energia.