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As reformas estruturais que o atual governo vem implementando são importantes para garantir o crescimento econômico de longo prazo do Brasil, mas nada impede que políticas de estímulo à demanda sejam colocadas em prática para que a atividade do País consiga reagir no curto prazo.

É o que defende o ex-ministro da Fazenda (2016), Nelson Barbosa, professor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV EESP). “Somente na cabeça de ideólogo só é possível fazer uma coisa ou outra: ou política de demanda ou reforma estrutural”, declarou Barbosa durante o 16º Fórum de Economia, ontem, na capital paulista.

“Somos uma sociedade avançada o suficiente para que o Congresso consiga fazer as duas coisas ao mesmo tempo”, complementou o ex-ministro. Para ele, uma menor restrição fiscal no curto prazo seria importante para o Estado voltar a garantir, com mais qualidade, programas essenciais nas áreas de saúde, educação e segurança.

“Precisamos recuperar o mais rápido possível os investimentos, principalmente nos setores de infraestrutura e habitação”, afirmou Barbosa, mencionando o contingente de 12,6 milhões de desempregados hoje no Brasil. Segundo ele, os investimentos que estão sendo realizados não estão conseguindo nem mesmo cobrir a depreciação da infraestrutura já existente no País.

“Para se ter uma noção do grau de polarização ideológica que nós estamos, hoje é considerado ‘expansionista fiscal’ quem defende que o governo invista para não deixar uma ponte cair”, destacou Barbosa.

Para o ex-ministro, é urgente elevar os investimentos mesmo que isso seja feito via emissão de dívida. Por outro lado, ele pontuou que a tendência de queda da taxa básica de juros (Selic) abre espaço para que o governo possa se endividar, sem se comprometer com um custo muito elevado.

“A Selic está em 6% e deve cair mais. Já o Produto Interno Bruto [PIB] nominal, que é o PIB real [efetivo] mais a inflação, está em torno de 4,5%. Daqui a pouco esses dois irão convergir e, quando isso ocorrer, é o momento do governo começar a emitir dívida para investir, sem ter um custo fiscal muito excessivo”, explica.

A política fiscal menos restritiva proposta por Barbosa inclui mudanças em mecanismos já existentes, como o teto de gasto que impede que as despesas primárias do governo cresçam acima da inflação.

O economista propõe que o teto seja somente para os gastos correntes, que não incluem os investimentos públicos. Dessa forma, na visão dele, seria possível tirar o País do atual cenário de estagnação econômica para um crescimento de cerca de 2,5% no curto prazo.

Redução do crédito

O economista Demian Fiocca, que foi presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), durante os anos de 2006 e 2007, também esteve presente do Fórum, apresentando os possíveis motivos pelos quais o Brasil não consegue retomar um crescimento mais forte, após a recessão de 2015 e 2016. Em seus estudos, Fiocca verificou que a forte mudança na política de concessão de crédito em 2016 afetou fortemente a economia brasileira.

Foi a partir daquele ano que os bancos públicos reduziram “drasticamente” a oferta de financiamento. Para se ter uma ideia, nos últimos três anos, os bancos públicos tiraram da economia brasileira 5,8% do PIB, o equivalente a cerca de R$ 400 bilhões. “Não é pouca coisa. Ocorreu uma quebra no mercado de crédito do País”, ressaltou Fiocca.

Barbosa acrescentou que o fator político é um outro componente que está impedindo a retomada do crescimento econômico. Segundo ele, há uma forte incerteza institucional e uma “politização da Justiça”.

O ex-ministro destacou ainda que o Brasil já conseguiu resolver seus problemas de inflação, juros e de câmbio e que o principal debate que está posto hoje é qual o Estado que o País deseja e quem “irá pagar a conta” por essa estrutura.

Durante o evento, foi defendido ainda uma política de reindustrialização do Brasil, que possa permitir a introdução de tecnologias mais avançadas no processo de produção, além de elevar a exportação de manufaturados.