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A dívida externa bruta do Brasil acumula em 2018 o valor de US$ 274 bilhões. Segundo o cronograma de amortização do Banco Central (BC), só neste ano, US$ 53,2 bilhões devem ser desembolsados para o pagamento do déficit.

A projeção mostra uma perspectiva de queda gradual dos pagamentos, e estima que em 2023 o valor a ser pago será de US$ 17,7 bilhões.

A dívida externa brasileira, entretanto, não é considerada preocupante, pois apresenta uma trajetória de redução que tende a ser benéfica para a economia. Um baixo nível de endividamento externo é uma sinalização positiva aos investidores.

Segundo o coordenador do mestrado profissional em Economia e Mercados da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Pedro Raffy Vartanian, a partir da década de 1980, houve uma inversão do grau de endividamento externo com o interno. “Até os anos 80, toda a dívida do Brasil era externa, isso explica o volume de endividamento. Mas, nos últimos 25 anos, o governo brasileiro tem trocada a dívida externa pela interna, com o objetivo de reduzir o risco-país. Uma nação endividada em dólares, com uma desvalorização da moeda, causaria um rombo enorme ”, explica ao DCI.

A diminuição vem sendo mantida desde então graças às exportações. “O País exporta mais do que importa e acumula moeda estrangeira. Parte desse acúmulo vai parar nas reservas do BC. Esse processo de exportar mais do que importar permite que o país adquira dólares para pagar a dívida. Para se ter noção, nós teríamos como acertar as contas amanhã”, diz.

Para ele, a manutenção desse controle deve fazer com que o cronograma estabelecido seja alcançado sem dificuldades. “Podemos considerar esse cronograma factível graças a um colchão de reservas internacionais muito confortável”, afirma.

O estoque de reservas internacionais atingiu US$ 379,5 bilhões em junho de 2018, último dado divulgado pela autoridade monetária.

A preocupação estaria, então, com o crescente aumento da dívida interna.

Enquanto a dívida externa bruta corresponde atualmente a 15,9% do Produto Interno Bruto (PIB) do País, o relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI) mostra que, em 2018, o percentual da dívida pública brasileira deve chegar a 87,3% PIB. A instituição ainda prevê que o déficit deve bater os 90% do PIB no ano que vem, e chegar a quase 100% até 2023.

“Um baixo nível de endividamento externo é uma sinalização positiva para a economia, mas como temos uma dívida interna crescente. Ainda há espaço para desconfiança do mercado e se sobrepõe negativamente ao cenário da dívida externa em queda nos próximos anos”, comenta.

“Depois de 2008 e 2010, houve um aumento excessivo de gastos no governo e de desonerações, as conhecidas pedaladas fiscais, que provocaram um aumento do endividamento interno. Além do cenário não ser positivo, se encontra em um patamar preocupante. E, se não for administrado, podemos perder completamente o controle das contas públicas”, conclui.

Setor privado

A dívida externa do Brasil é resultante de empréstimos e financiamentos contraídos no exterior pelo próprio governo, pelo Banco Central e por empresas estatais e privadas. Os bancos compõem a maior parte do déficit total.

Em 2018, o saldo devedor do governo geral chegou ao valor de US$ 70 bilhões, enquanto das instituições bancárias soma US$ 93 bilhões.

“Do ponto de fiscal, a dívida externa não tem impacto porque a parte pública é muito pequena. Mas temos muitas empresas devendo no exterior, resultado de captações externas. O dado preocupante é que apenas uma pequena parcela dessas empresas com endividamento em uma moeda forte como o dólar fizerem hedge [estratégia de proteção para os riscos de um investimento]”, explica o coordenador do curso de Administração do Instituto Mauá de Tecnologia, Ricardo Balistiero.

Para ele, apesar de contar com uma situação que demanda mais apreensão, a dívida privada não deve causar interferência no cronograma de pagamentos. “As empresas não oferecem grandes riscos, principalmente, porque são em sua maioria bancos grandes, que contam com saúde financeira, não têm risco de calote”, diz, ao acrescentar que uma forte valorização do dólar também teria um efeito controlado.