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Diante do avanço do dólar e do barril do petróleo, as projeções do mercado para a inflação de preços administrados em 2018 subiram de 5,20% para 5,40%, em uma semana.

Há um mês os analistas consultados pelo Banco Central (BC) previam variação positiva de 5%. Já no início de abril, a expectativa era de 4,9%, indicou o Relatório de Mercado Focus, divulgado ontem. Para 2019, a mediana das projeções para os preços monitorados passou de 4,44%, na semana passada, para uma alta de 4,50%.

Na avaliação do professor de economia do Ibmec-RJ, Marcelo Mello, o dólar e o petróleo são os principais fatores que estão puxando para cima as expectativas. Com o aumento do preço do barril de petróleo – o do tipo Brent chegou a superar US$ 80 na semana passada –, as tarifas da gasolina e do diesel também estão sendo pressionadas, gerando reações pelo País. Ontem, caminhoneiros autônomos na maioria dos estados realizaram paralisações contra o alto custo do diesel. Há um mês atrás, o valor do litro deste combustível era R$ 2,0576 e, hoje, está sendo reajustado pela Petrobrás para R$ 2,3716, aumento de 15,26% no período. A estatal também elevou o valor da gasolina para 2,0867, alta de 17,71% em um mês.

“O Brasil terá que se acostumar com a nova política de preços [da Petrobrás], que segue a lei da demanda e da oferta”, comenta Mello. Desde o final de 2016, a Petrobrás reajusta os preços dos combustíveis em linha com a variação do valor do petróleo no mercado internacional. “A recente alta vai pressionar diversos custos, porque petróleo é insumo básico para a produção de bens e serviços”, completa Mello. Segundo ele, caso os Estados Unidos e o Irã entrem em um acordo é possível que o preço do petróleo se arrefeça. No entanto, a expectativa para o “curtíssimo prazo” é de turbulência nos valores do insumo. A saída dos EUA do acordo nuclear com o Irã pressionou mais o preço do petróleo, que já estava sendo impactado pelo corte de produção da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep).

Carga tributária

A principal reivindicação dos caminhoneiros é a redução da carga tributária sobre o diesel. Os motoristas pedem a zeragem da alíquota de PIS/Pasep e Cofins e a isenção da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide). Ontem, pela manhã, os presidentes do Senado, Eunício Oliveira (MDB-CE), e da Câmara Rodrigo Maia (DEM-RJ), convocaram, para o próximo dia 30, uma comissão geral do Congresso para debater os combustíveis. Maia sugeriu que o governo federal avalie a possibilidade de zerar a Cide e diminuir PIS/Cofins sobre o produto para ajudar a reduzir o preço da gasolina.

Ontem ainda, no início da noite, o presidente Michel Temer se reuniu com os ministros de Minas e Energia, Moreira Franco, da Fazenda, Eduardo Guardia, e do Planejamento, Esteves Colnago, além do secretário da Receita Federal, Jorge Rachid, para discutir o tema. Segundo Guardia, não há espaço para reduzir carga tributária, atualmente.

É o que também pensa Mello, do Ibmec-RJ. Segundo ele, o fato do governo não ter conseguido endereçar a reforma da Previdência Social torna difícil um corte de tributos neste momento. Por outro lado, ele avalia que o avanço do dólar e do preço do petróleo, por enquanto, não trazem grandes riscos para a inflação oficial, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), tendo em vista o baixo nível de atividade do País. Ele pondera que BC se mostrou cauteloso sobre o tema, ao ter decidido manter os juros em 6,50% ao ano, na semana passada.

A forte elevação do dólar sobre o real também está impactando as expectativas para os Índices Gerais de Preços (IGPs). A previsão para o IGP-M de 2018, por exemplo, que é referência para o reajuste dos contratos de aluguel, foi de 5,21% para 5,36% em uma semana. Há um mês, estava em 4,59%. A mudança de bandeira tarifária verde para amarela, neste mês, nas contas de energia elétrica é outro fator que provoca alta nos preços administrados, além do reajuste dos planos de saúde e medicamentos no início de 2018.