Publicado em

A estagnação econômica que vem pautando 2019 revela seu poder devastador no segmento de saúde suplementar. Segundo o mais recente balanço trimestral da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), as operadoras perderam 212.595 clientes de dezembro a março. O índice de março, aliás, representou a quarta queda mensal seguida e o patamar mais baixo desde o mesmo período do ano passado, com um número total de 47,053 milhões de beneficiários.

Essa expressiva perda acompanha o aumento do desemprego, mas também é consequência dos reajustes acima da inflação estipulados pelos planos. No acumulado de janeiro a abril, o acréscimo foi de 3,22%, enquanto o índice geral de preços registrou alta de 1,92%. A julgar pela avalanche de despesas com as quais convivem as operadoras, a matemática do setor parece óbvia. Mas a conta, definitivamente, não fecha e revela uma cadeia improdutiva com a marca da ineficiência.

O ciclo de permanência médio das pessoas em um plano beira os 36 meses. E não faltam corretores no mercado trabalhando a economia de custos como plataforma de vendas. No entanto, a precarização na oferta contribui para abrir uma perigosa fronteira para a saúde pública – a cada R$ 100 pagos pelos planos a clínicas, hospitais, laboratórios e médicos, R$ 15 correspondem a algum tipo de fraude, conforme apontam o Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS) e a PwC Brasil. O relatório é categórico ao calcular as perdas em R$ 20 bilhões, em razão de infrações dos próprios usuários, como o empréstimo de carteirinha e pedidos de reembolso indevidos, mas especialmente no ambiente das instituições. Faturas superestimadas, pacientes fantasmas e procedimentos necessários compõem esse pacote.

As implicações desse modelo são óbvias. Os custos dos procedimentos médicos para os pacientes tornam-se 1/3 superiores ao valor que deveria ser aplicado. A necessidade de alocar mais despesas para programas de auditoria, fiscalização e gestão de riscos, além de corromper o fluxo de caixa, burocratiza ainda mais os processos. Toda a cadeia é comprometida. De acordo com estimativas da Anahp - Associação Nacional de Hospitais Privados, a utilização dos serviços hospitalares aumentou 70% entre 2012 e 2017, o que equivale a um incremento de R$ 49 bilhões nos gastos assistenciais.

Além do sistema de remuneração, a procura de especialistas de áreas distintas para um mesmo problema estimula a duplicidade de exames e a ausência de prontuários únicos corrobora para essa dificuldade. Esse cenário faz com que o Brasil ostente o nada agradável título de campeão mundial em ressonâncias magnéticas. Em média, são 130 para cada mil beneficiários, contra 52 nos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Listar todos os problemas que afligem a saúde suplementar exigirá quase uma tese, mas a cada discussão do gênero encontramos as soluções ao nosso redor. E, novamente, o emprego da telemedicina mundo afora nos apresenta lições preciosas, ao possibilitar uma profunda transformação na realidade da assistência à saúde em países como a China. De acordo com a Comissão Nacional da Saúde local, todos os distritos em situação de pobreza do país já têm acesso a essa tecnologia por meio de iniciativas como a da Ping Na Good Doctor.

Inteligência nada artificial

Em 60 segundos, essa plataforma baseada em sistemas de inteligência artificial identifica a doença e indica o tratamento mais adequado a partir de uma análise do quadro do paciente. Em caso de necessidade de medicação, unidades clínicas dispõem de 100 categorias de remédios estocados. Caso o medicamento não esteja disponível, o paciente pode requisitá-la pelo app da empresa. Na base de dados, constam 2 mil doenças. Mais de mil “clínicas” do gênero operam no país.

Em outra iniciativa que envolveu players da saúde e o governo, 249 hospitais de Sichuan, zona rural habitada por 81,1 milhões de pessoas, foram conectados a 112 centros especializados em Beijing. Entre 2003 e 2012, foram realizadas quase 12 mil teleconsultas dedicadas principalmente ao diagnóstico de neoplasias, lesões e doenças cardiovasculares. Como resultado, 39,8% dos diagnósticos originais realizados nos hospitais rurais foram modificados após a consultoria com os hospitais especializados e 55% dos tratamentos originais foram alterados. Além da evolução na qualidade assistencial, o projeto gerou uma economia líquida em torno de US$ 6 milhões por ano, para pacientes e especialistas.

No Brasil, enquanto a telemedicina enfrenta polêmicas e resistências quanto à sua regulamentação e adoção em larga escala, os serviços de concierge poderiam funcionar como um primeiro passo para a racionalização do modelo de saúde. Uma central de relacionamento multidisciplinar viabilizaria a realização de check-ups de forma criteriosa e quando realmente necessário, levando em conta histórico, prescrições de tratamento e outros indicadores devidamente catalogados. Essa equipe também daria o suporte no esclarecimento de dúvidas sobre a ingestão de medicamentos.

No caso dos planos coletivos empresariais, estar lado a lado do paciente garante à operadora e à companhia contratante que o medicamento prescrito será utilizado e que o tratamento não será interrompido abruptamente. A empresa estimula o empoderamento do seu colaborador, o engajará para que ele cuide da saúde e não terá uma conta indesejada no futuro. Essa é a matemática com mais chances de dar certo.

* Luiz Carlos Monteiro é presidente da ePharma, especializada em programas de benefícios de medicamentos e gestão de saúde