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São Paulo - Os resultados financeiros das siderúrgicas brasileiras continuam pressionados pela baixa demanda no País e o excesso de capacidade global. No caso da Gerdau, o mercado espera um cenário ainda desafiador no curto e médio prazo.

"O pior já passou para a siderurgia brasileira. Porém, a Gerdau ainda precisa reduzir custos, elevar a geração de caixa e vender ativos para diminuir seu endividamento", afirma o analista da Upside Investor, Pedro Galdi.

Segundo ele, o excesso de capacidade global de aço não deve mudar tão cedo, impactando os preços. "As margens continuarão penalizadas no setor. O que pode amenizar a situação da Gerdau no curto prazo são suas operações nos Estados Unidos."

No entanto, para o analista da Coinvalores, Felipe Silveira, as operações da siderúrgica nos EUA poderiam trazer melhores resultados se não fosse a entrada maciça de produtos importados naquele país, vindos principalmente da China e da Turquia.

"As operações norte-americanas poderiam até ser uma válvula de escape neste momento, mas a concorrência com importados ainda segue fortemente", avalia.

O presidente da Gerdau, André B. Johannpeter, disse nesta quinta-feira (04) a jornalistas que medidas anti-dumping nos Estados Unidos contra China e Turquia podem beneficiar a empresa.

"Nossa geração de caixa na América do Norte foi fortemente impactada pela entrada de importados no primeiro trimestre. Mas medidas que têm sido implantadas pelo governo [Donald] Trump já vêm surtindo efeito", pontuou.

Enquanto a demanda no Brasil não decola, o cenário global continua impactado pelo baixo consumo na Europa, desaceleração do crescimento na China e excesso de capacidade no mundo. "A Gerdau ainda tem muito a fazer para trazer o seu endividamento para patamares aceitáveis", acrescenta Galdi.

A alavancagem - relação entre dívida líquida e lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) - da companhia atingiu 3,5 vezes ao final de março deste ano. "Para a Gerdau alcançar sua meta de alavancagem em torno de 2,5x, a saída seria reduzir custos e vender ativos", observa o analista da Upside.

Silveira destaca, porém, que a siderúrgica conseguiu reduzir consideravelmente os investimentos (capex) no ano passado. "Se a companhia mantiver o capex conforme prometido para 2017, isso deve contribuir muito para a redução do endividamento."

A Gerdau informou que a previsão para este ano é de um desembolso de R$ 1,3 bilhão, em linha com o capex de 2016. O foco dos investimentos, de acordo com Johannpeter, será principalmente na melhoria da produtividade e na manutenção das operações.

Resultado fraco

No primeiro trimestre, a Gerdau reverteu lucro de R$ 14 milhões e reportou prejuízo líquido ajustado de R$ 34,1 milhões, devido à provisão para pagamento de impostos.

Já o Ebitda ajustado alcançou R$ 853 milhões de janeiro a março, recuo de 8,3% na comparação anual. Porém, houve crescimento de 19,1% em relação aos três últimos meses de 2016.

O vice-presidente executivo de finanças, Harley Lorentz Scardoelli, justificou a queda do Ebitda na comparação anual com o descompasso entre custos de matéria-prima e preços de venda, que não cresceram na mesma proporção.

Segundo o analista da Coinvalores, o resultado da siderúrgica veio acima do esperado, apesar de fraco. Para Galdi, o balanço financeiro da empresa reflete a realidade do setor no Brasil. "A atividade mostra sinais de melhora, mas ainda vai demorar para decolar."

A estimativa de Silveira é de um início de retomada do mercado siderúrgico para o segundo semestre deste ano, em linha com as previsões divulgadas pela Gerdau. Já Galdi se mostra mais cético. "O mercado de aço no Brasil só deve apresentar uma recuperação mais consistente a partir de 2018, especialmente na segunda metade do ano", acredita.

De janeiro a março, as vendas de aço da Gerdau totalizaram 3,59 milhões de toneladas, queda de 6,8% em relação a igual período do ano passado. Na comparação com o trimestre imediatamente anterior, houve retração de 5,5%.

O desempenho da companhia foi impactado pela baixa demanda no mercado doméstico, principalmente no segmento de aços longos, resultado da crise da construção civil.

Johannpeter destacou que tanto a Gerdau quanto o setor em geral tem apostado no mercado externo para escoar a produção. "As margens na exportação são baixas e às vezes até negativas, mas os embarques são essenciais para manter a capacidade das plantas no País", explicou o executivo.