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Ao insistir em pautas caras à sua base ideológica já rejeitadas pelo Legislativo e pelo Judiciário, o presidente Jair Bolsonaro tem optado por dar satisfação a seus seguidores mais fiéis em detrimento a um esforço para ampliar seu apoio popular e ao custo de um acirramento nos laços com os demais Poderes.

Um exemplo desse comportamento foi a decisão de incluir em uma nova medida provisória a transferência da competência da demarcação de terras indígenas da Fundação Nacional do Índio (Funai), ligada ao Ministério da Justiça, para o Ministério da Agricultura. A proposta já havia sido rejeitada pelo Congresso ao analisar a MP que promoveu uma reforma administrativa.

Após a reedição do tema, Bolsonaro sofreu duas derrotas. No Supremo Tribunal Federal, o ministro Luís Roberto Barroso deu liminar suspendendo a medida, aceitando argumentação de que um tema rejeitado não pode ser reeditado na mesma sessão legislativa. No Legislativo, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM), devolveu trecho da MP que tratava da demarcação.

“Ele está governando para o público dele, que não é majoritário. Ele nem tem a maioria pragmática nas duas Casas e ele nem tem um diálogo majoritariamente com a população. Ele está conversando com um gueto”, afirmou o cientista político do Insper Carlos Melo. “E por que ele reedita? Porque está dando satisfações ao gueto.”

Mais que isso, com essa estratégia, Bolsonaro reforça o discurso de que está tentando mudar a forma de governar e cumprir o que prometeu na campanha eleitoral e coloca sua base ideológica em choque com os demais Poderes.

"Ele fala que fez a parte dele e lava as mãos. Agora, é claro que isso implica em maior desgaste da Câmara e do Senado com a base do Bolsonaro, porque ele está alimentando para a base, o conflito entre as instituições”, argumentou Melo.

O cientista político entende que Bolsonaro pode estar fazendo um cálculo errado, o de que a parcela do eleitorado que o apoia de forma mais enfática, principalmente nas redes sociais, representa a vontade da maioria da população.

"Ele faz um cálculo que talvez seja equivocado. Ele acha que a base dele nas redes sociais é a maioria do país, mas não é. Alguém precisa falar para ele que ele atinge 10 milhões de pessoas – que é gente para caramba – mas o País tem 210 milhões de pessoas”, diz Melo.

O cientista político da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Adriano Oliveira vai além e diz que o comportamento do presidente é de quem tem repulsa à política. “Bolsonaro não faz política, ele não cede ao Congresso. Ele quer, na verdade, entregar ao Congresso a sua ideia e quer que o Congresso aprove. Quando não aprova, ele reclama do Congresso”, disse.

Ojeriza à política

"Ele mostra cada vez mais a sua ojeriza em fazer política... Ele tem comportamento de soberano, e não de presidente que exige um diálogo, que exige formação de uma coalizão.”

O decreto que flexibilizava o porte e a posse de armas é outro episódio em que Bolsonaro priorizou sua base mais radical. Diante de uma derrota iminente no Congresso que caminhava para derrubar a medida, o presidente revogou o decreto, mas editou outros três e enviou projeto de lei ao Parlamento para tratar do tema. Antes, usou suas redes sociais e fez um apelo à população para pedir ao parlamentar em que votou para que não derrubasse o decreto.

Para Oliveira, o presidente fala só com 15% do eleitorado, que é o percentual de eleitores que seriam “ideologicamente fiéis ao presidente. Pesquisa do Ibope que saiu agora mostra que 32% aprovam o governo, dentro disso tem os bolsonaristas convictos e os outros 17% eleitores que esperam o presidente fazer alguma coisa, são antilulistas que deram uma chance”, avalia.